Control Alt Del
3.11.09
2.11.09
22.10.09
13.10.09
7.10.09
Vou para cima

Hoje li um artigo sobre botões nos elevadores. Estava muito bem escrito. Falava do quão negligenciados estavam normalmente os botões que accionam as portas para abrir, e o quão riscados e abusados estavam os que fecham as portas antes do tempo. A moral é facilmente deduzida. Mas porque é que alguns de nós nos isolamos e pensamos que o melhor é fazermos a viagem sozinhos? Pouco mais de uma hora depois de ter lido o artigo, tive a resposta. Separei-me há 2 meses, e ainda hoje existem pessoas que nem tendo os direitos ou deveres de amigos, continuam a tentar invadir a minha vida. Com frases desajeitadas, insensíveis, e intrometidas. Eu sou daquelas pessoas que atira a perna ou o braço contra a vontade das portas para as segurar abertas para quem queira entrar. Faço isso nos elevadores, e faço isso na minha vida. Dia sim dia não arrependo-me.
9.7.09
Wie Thomas Bernhard: Love-hate for Austria
Já vos falei da mania deles de apresentarem a pergunta antes de a fazerem. Eles dizem: Eine Frage, e blá blá blá. Pois, então agora falo-vos da mania de dizerem Achso! e que não, não são eles a espirrar. Significa: Ahhhhh, já percebo. Ora, eles dizem isso muitas vezes porque é complicado para cada um dos austríacos perceber o que o outro está a dizer. Isto porque para além de ninguém saber ao certo falar alemão, eles colocam os verbos no fim da frase. E as frases podem ser do tamanho de umas dez linhas. Quando o austríaco diz o verbo de acção que revela finalmente o que é ele foi fazer, o outro austríaco não tem outra resposta senão um Achso! (santinho) Pois, agora percebo, seria o que vocês portugueses diriam no fim da minha conversa toda se eu vos dissesse: Eu à cave da nossa casa com o meu namorado uns quantos tomates e uma Coca-Cola ontem ao fim do dia já escuro muito depressa porque amigos em casa tínhamos buscar fomos. O Achso viria naturalmente, e até com um certo alívio. Ninguém prendeu ninguém na cave, a cave também não foi o lugar onde a magia acontece, e finalmente entenderam que só lá fomos buscar uns inocentes tomates e uma Coca-Cola. Ufa. Mas há um outro perigo. Quando finalmente eles sabem o que é que se fez na cave, há grandes probabilidades de já não se lembrarem quem é que lá foi. E a minha frase é uma brincadeira de bebé, comparada com as deles.Mas há outras coisas estranhas, por exemplo, aqui, a rapariga não é do sexo feminino ou sequer masculino. Simplesmente, não tem sexo. É neutra: das Mädchen. Mas a cenoura (die Karotte) tem já todo o direito a ser do sexo feminino. Penso que isso seja porque a cenoura é rica em betacaroteno, que é importante para a pele e para as mucosas. Outra coisa estranha é a ligação entre as mulheres e as raparigas sem sexo com a bicicleta. Para começar, todas têm uma bicicleta. Uma mulher aqui na Áustria sem bicicleta não é uma mulher. Quando eu não tinha bicicleta elas nem respondiam aos meus bons dias. E não era por serem xenófobas. E por bicicleta entenda-se a bicicleta com cadeado, cestinha, capa de selim, corrente, bomba de ar, capacete, cotoveleira, joelheira, e outras nhanhanheiras. Mas até aí tudo bem, o problema pelo menos para mim passa por andarem de bicicleta com mini-mini-mini-mini-saias, com a perna para cima, perna para baixo, perna para cima, para baixo, calcinha com renda, perna para cima, perna para baixo, cuecas da avó, para cima, para baixo, cima, baixo. Conto umas cinco calcinhas por dia, isto porque a maior parte delas usa. Mas há coisas piores. O Danúbio, o Danúbio Azul que deu o nome à valsa do Strauss, e inspirou tantos outros poetas, fá-los-ia regurgitar os últimos jantares em vida. Nos seus bons tempos, ao longo dos 110 km, da nascente ao poente, o rio recebia mais de vinte pequenos mas cheios afluentes. Hoje são fios de água e condutores de esgoto e outros detritos. Até os pobres batráquios desapareceram. Quando o Strauss passeava pelas margens do Danúbio em câmara lenta, porque na altura era tudo mais devagar, era comum passar-se por famílias inteiras em piqueniques e ver-se os putos a aprender a nadar nas águas então cristalinas. Agora ainda se vêem muitas pessoas, mas a apanhar sol na relva e uns poucos malucos como eu dentro do rio lamacento. Mas ou vou lá para dentro envenenar-me ou a opção é esticar-me na relva a apanhar um sol enevoado ao lado de pessoas que não conhecem o hábito de usar um biquini ou calções de banho. Meus amigos, por favor: Enfiem-me num avião de volta para Lisboa, ou metam-me numa cave!
13.1.09
Na Áustria, a vida é diferente
Na Áustria o Natal é mais rápido. Janta-se em 5 minutos porque as salsichas comem-se depressa e ninguém tira os olhos do prato. Num minuto trocam-se as prendas porque só há uma prenda para a cada um. E como também não trocam beijos não se perde tempo com isso. O ritmo de vida é tão acelerado que qualquer austríaca que engravide, expulsa o filho depois do primeiro semestre.Na Áustria, os bebés não são irrequietos. Não se conseguem mexer com tanta roupa. Também não choram, sabem o quão desconfortável é ter a cair dos olhos estalactites.
Na Áustria, as pessoas levam multa se não atravessarem na passadeira e andam mais depressa porque devagar correm o risco de congelar. Também não sorriem na rua para não resfriarem as gengivas. Em casa, se se riem, o riso é prontamente auto-interrompido e justificam-se aos familiares ou amigos. Nos supermercados, as caixas parecem linhas de montagem de uma fábrica. Se demorarmos muito a guardar as compras, ficamos sem os dedos.
Na Áustria, os deficientes podem andar sozinhos em todo o lado porque há acessos fantásticos para eles sejam totalmente independentes. Se não fosse assim não sairiam de casa porque não teriam quem os ajudasse. Todas as passadeiras de peões foram pensadas também para os cegos. Existe um som que orienta o cego para atravessar a passadeira. Mas o som está lá quer passem carros quer a estrada esteja vazia. Talvez seja por isso que nunca vi um cego na rua. Já foram mortos pelo sistema.
Na Áustria praticamente não há desemprego nem sem-abrigo. Os que dormem nos bancos de jardim morrem de frio. E também não há pedintes por aqui. Como pedir é crime, são imediatamente levados pela polícia. Talvez seja por isso que ninguém pede desculpa ou com licença. Se algum estrangeiro está a impedir o caminho, o austríaco tenta ultrapassar o obstáculo em silêncio ou espera que o estrangeiro acabe de atar o sapato. Não falam qualquer palavra mas depois emitem um som de desagrado quando o caminho está finalmente livre. Na Áustria, antes de qualquer pergunta a um desconhecido eles avisam que vão faze-la. Dizem: Uma pergunta. E continuam. Ainda estou um dia para responder: Uma resposta. Ou se a pergunta me surpreender, digo: Uma exclamação.
Mas também, na Áustria não é de bom tom perguntar que gritos foram aqueles ou porque é que a filha do fulano nunca mais foi vista. Talvez seja por isso que na Áustria seja possível guardar-se filhos na cave durante anos sem que ninguém note.
Para os austríacos, um dia divertido é passá-lo em filas para fazer snowboard e depois em filas para comprar salsichas. Para eles, um com 2 graus positivos e 5 minutos de sol que não aquece ao meio-dia é um dia bonito. Se não fosse assim, não havia dias bonitos na Áustria. Mas o que falta em calor, existe em organização. Na Áustria todas as regras são cumpridas e quando um estrangeiro não as completa até o ser-se atropelado por uma bicicleta se torna possível. Quem quiser viver a experiência, basta que em vez de andar nas faixas reservadas para os peões, ande nas faixas para bicicleta. Por norma ouve-se uma campainha que avisa a aproximação do ciclista e depois, o embate. Eles não param porque estão dentro da lei.
Na Áustria, a qualidade de vida é sem dúvida superior e está a léguas de países como o Brasil. Até os ladrões são diferentes. Os ladrões brasileiros roubam porque têm fome, os austríacos roubam de barriga cheia. Ladrões? Mas o que estou para aqui a dizer! Não há roubos na Áustria, há objectos perdidos.
10.9.08
2.9.08
O meu nome é Sofia e moro com os meus pais na Pontinha.
A minha casa da Pontinha cheira à minha mãe. Cheira a bolo de chocolate feito pela Olga. Cheira a jogos de xadrez com o meu pai, que desconfio que ou me deixa ganhar ou joga muito, assustadoramente mal.
A minha casa da Pontinha sabe às manhãs de sábado, deitada na cama a ver os bonecos na televisão, e a pão com nucrema, ou nucrema com pão. Sabe àquelas pessoas de plástico de 9 centímetros às quais passo a vida a mudar as perucas e as pernas. Toma lá umas pernas azuis, para combinar com a camisa. É isso, a minha casa na Pontinha cheira a pernas azuis dos playmobis.
Mas hoje devo estar constipada. Deve ser isso, porque não sinto nenhum cheiro familiar. Estou de férias em algum lugar. Sim, porque hoje não acordei no meu quarto cor-de-rosa. Nem acordei com a minha mãe a subir de rompão os estores, porque está um dia lindo lá fora, nem com as músicas dos Platters, ou com canções italianas. Hoje a minha avó também não me veio desafiar para um crapô. E o meu pai não chegou a casa, nem pousou a pasta de médico, parecida com a pasta do Dr. Freud, no armário da entrada. Os miúdos não discutiram sobre quem levava o carro hoje à noite. O Pedro não atirou as culpas para cima do Bruno e o Bruno não se atirou para o sofá a ver televisão. Não está ninguém em casa, ou será que eu é que me evadi de mim? Não. Devo estar de férias.
Estranho. Quem é este homem que agora todas as noites dorme e acorda comigo? Que parece que sabe quem eu sou e do que é que gosto. Que sabe que tenho medo de morrer a dormir, e que tenho medo de enlouquecer. Mas quem é este homem sentado ao meu lado com um anel igual ao meu, e que sempre se adianta e pede uma Coca-Cola por mim porque sabe que eu não bebo outra coisa? É giro, não vou dizer que não, e de vez em quando dá-me beijos na boca, sabem bem, não vou dizer que não, mas não deixa de me ser um estranho. Um estranho que me conhece. Será que me é alguma coisa? Um parente afastado? Um primo afastado apaixonado? Não. Não sei quem é. E não é da minha família. Nós somos cinco lá em casa. Não há o que enganar nas contas. Sempre fomos cinco: A minha mãe, o meu pai, eu e os miúdos. A minha avó mora no quarteirão a seguir, tenho um tio-avô em Linda-a-Velha e uma tia-avó na Rua dos Soeiros, e é isso, não nos damos com mais ninguém. E lá em casa somos 5.
Estranho. Dizem-me agora que As minhas águas rebentaram. Mas eu não estou a chorar nem estou com a menstruação. Eu acho que sofro é de incontinência. Sim, sinto água a correr pelas pernas abaixo, qual fonte contrariada. Depressa, é o primeiro filho, acabei de ouvir. Mas filho de quem? O meu nome é Sofia e eu moro com os meus pais na Pontinha. Vestiram-me uma roupa azul, e gritam, repetitivos, Puxe, puxe. Vá lá, só mais uma vez. E eu, obediente e de pernas abertas, vejo um bebé a sair de mim, a chorar desalmadamente. Quem é ele? Parece um dos meus Nenucos mas eu sei que não é meu. Os meus Nenucos não choram, não funcionam a pilhas.
4.8.08
O Amor é grande, o homem pequeno
Espécie de raiz profundafeita de sol e de sombra
sai de mim, sai de mim.
Deixa-me aqui deitada em terra fria
para que eu possa seguir o vento quente
que passou por mim, uma vez.
E eu vou, juro que vou,
ter com o Amor que é bem maior do que os homens.
Vou, juro que vou,
porque eu quero brilhar no escuro
e sentir o mundo com as mãos
Sentir castelos na língua
E respirar odes em noites de fado.
Porque eu sonho com o etéreo
deitada em mantos de estrelas
Porque eu vivo do sonho e sonho com o eterno
Eternamente.
Porque eu vivo pelo amor, e sem ele,
Deito-me todas as noites num trono frio
De um reino vazio.
16.4.08
Luanda, onde estás tu?
Homens incompletosCom uma perna das calças
Enrolada de qualquer jeito
E sem serventia
Coxas que terminam de repente
E sapatos encaixados
Em pernas postiças
Cidade de cicatrizes e cruzes
Antes eras florida
Agora tens mortos de guerra
Plantados nos teus jardins
Os que ainda sobram estão sós
Exaustos e famintos
Arrastam-se pelas ruas imundas
E afastam as moscas que voltam
Uma história com final infeliz
É a nossa
Abriga-nos debaixo desta terra
Vermelha e ainda amada
Tem pena de nós
Tira-nos de vez o funje de cada dia
E deixa-nos sangrar até à morte
De Luanda já não me lembro
Mas deve ter sido bonita...
1.4.08
Olhos verdes
Sinto o zumbido de uma mosca na minha gargantaSinto-lhe o gosto dos ovos postos na minha língua
Deixas as varejas no meu tapete vermelho
e eu contenho aos solavancos os vómitos dentro de mim.
Tu olhas para mim com os teus olhos verdes
Enquanto esfregas as tuas mãos uma na outra, uma na outra, uma na outra.
3.3.08
Este texto é para ti, Susana
Ela é um ano e dois meses mais velha do que eu. Eu tinha 4 anos quando nós nos conhecemos. Ela tinha o cabelo pela cintura, castanho e liso. Eu tinha o cabelo pelos ombros, normalmente separado em duas partes com dois totós vermelhos. Conhecemo-nos debaixo da mesa da cozinha, que ficava encostada a uma parede com azulejos azuis, e onde eu passava muito tempo porque gostava da sensação de ter um tecto por cima, e no qual pudesse tocar.Tinha acabado de chegar de Faro, onde morei dos dois aos quatro anos, e fixámo-nos em Lisboa. Eu passei a morar no 3º C, na casa da minha avó que sempre tratei por mãe. Ela morava no 1º C e era filha da porteira. Chamava-se Susana Isabel da Silva Amaral e tinha primos com piolhos. Eu não gostava do Benfica porque o pai da Susana não a deixava brincar comigo, dizia a tudo que não quando o Benfica perdia. E o Benfica perdia muitas vezes. Eu não gostava dos primos dela que tinham piolhos. Volta e meia ela era levada pelos pais para a terra que se chamava Viseu para ir ao aniversário de um dos 15 primos que tinham piolhos.
Eu tive piolhos. Agora sei que os piolhos são insectos sem asas, de cor escura, pequenos, que se alimentam exclusivamente de sangue humano. Agora sei que os ovos dos piolhos são endurecidos e de cor branca tipo pérola e são chamados de lêndeas. São depositadas nos fios de cabelo, próximos do couro cabeludo, e deles nascem as ninfas que quando adultas depositam cerca de 80 ovos antes de morrer. Quando eu tinha 4 anos, as lêndeas não eram outra coisa senão os filhotes irrequietos dos piolhos, que gostavam muito de viajar, saltando facilmente de cabeça em cabeça. Nunca me importei de ter piolhos. Aliás, até gostava da extra atenção da minha mãe quando me revistava o couro cabeludo. Às vezes, e isto nunca lhe confessei, fingia ter comichão aqui e ali.
A Susana estava sempre presente. Lembro-me de brincar com ela e com os meus irmãos com legos e carrinhos. De nos construírem uma casa feita de lençóis na sala, presos por molas. Tendas anexadas a tendas. De nos sentarmos quietas e ansiosas pelo espectáculo de fantoches no beliche dos meus irmãos. De chorar desalmadamente quando o meu irmão Pedro incorporando o papel de cowboy maldito queimava os meus índios, depois de atados a paus e rodados sobre uma fogueira, tal espeto de javali grelhado sobre brasas. E da Susana deliciar-se a ver-nos a brincar, porque dizia que preferia ver do que estragar alguma coisa. Lembro-me do meu irmão Bruno me torturar com cócegas quando me ia buscar à escola primária nº 2 da Pontinha. Lembro-me da Susana ter contado à minha avó que o Marcos me tinha dado um beijinho na boca, e de eu ter sido obrigada a lavar os dentes, os lábios e a língua com sabão azul e branco, quando o beijinho na boca fora na verdade um leve e tímido encostar de lábios muito juntos e esticados. Lembro-me de lhe contar estórias inventadas à pressão só para a distrair, porque ela estava triste. Lembro-me dela ser canhota e eu achar muita piada. E de com as nossas mãos termos feito um carro viajar até ao futuro, passando com o carrinho perto da rota de fios de algodão ensopados em álcool, e depois incendiados pelo meu irmão quase pirómano. Lembro-me de querer ser bombeira. E ela polícia. Lembro-me de partilhar todos os meus brinquedos com ela. De andar de bicicleta à volta do quarteirão, por turnos. Primeiro ela. Depois eu. Depois ela. Depois eu. E o meu Pai e os meus irmãos correrem atrás para que se caíssemos fossemos agarradas. Lembro-me dela a tapar a boca com as duas mãos, de ficar vermelha e parecer que podia explodir a qualquer segundo, e de me implorar que eu parasse de contar piadas porque ela não conseguia respirar se se risse assim tanto. Lembro-me de lavarmos as duas as roupinhas das nossas bonecas no tanque. Em dois tanques pequenos, feitos ao nosso tamanho, e que a minha mãe comprou para nós. Lembro-me de nos esticarmos para pendurar as roupas nos varais do 1º C. Lembro-me de ficarmos as duas na varanda do 3º C a olhar para o prédio alto e cheio de janelas iluminadas que ficava depois do descampado, onde eu costumava colher flores com a minha avó. E eu dizia-lhe frequentemente que eu ainda havia de morar naquele prédio de reis e rainhas, quando fosse crescida. E que a levava comigo. Lembro-me de lhe dizer, agora eras a policia e eu era o ladrão e tu tentavas prender-me porque eu tinha roubado as maçãs da mercearia do senhor Mário e da senhora Odete. Ela sempre quis ser polícia. Eu sempre quis ser um ladrão.
Lembro-me de tanta coisa. De a ter convencido a brincar às cabeleireiras na sala da casa da minha avó que sempre tratei por mãe. Ela, com a voz fina e instável de 5 anos, perguntava-me pela terceira vez, ó Sofia, não vais cortar a sério, pois não? E eu dizia-lhe, fica descansada que a tesoura é de brincar. Mas vira-te para a frente. Vira-te para a frente senão não brinco mais contigo. E ela virava-se para a frente. E eu cortar-lhe-ia o cabelo pelas orelhas. E ela agradecer-me-ia, porque assim ficava mais bonita. Sempre tive a certeza de que se eu lhe dissesse, faz isto, faz aquilo, senão nunca mais sou tua amiga, ela fazia. Uma amizade assim nunca mais tive.
Agora moro no 1º B desse prédio que não tem reis nem rainhas, a senhora Odete morreu com um cancro, tu moras em Viseu e trabalhas numa fábrica de material de automóvel. Mas eu, quando vou visitar a minha avó, continuo a olhar da varanda do 3º C para baixo, e procuro no varal as roupas das nossas bonecas penduradas. E por vezes, quando volto para minha casa, engano-me e vou bater ao 1º C. Vamos andar de bicicleta. Vamos vestir e pentear as bonecas. Vamos brincar com plasticinas. Vamos cantar ao microfone. Vem brincar comigo, Susana, senão nunca mais sou tua amiga.
18.2.08
30.11.07
Ao vinho
Dizem que nasceste por acasoTalvez por uma mão-cheia
De uvas esmagadas e esquecidas
Dizem que és da cor da terra,
Da rosa e do sangue
Que tens a cor da noite e também a do dia
Dizem que moves os homens
Que apressas a Primavera
E que foste tu quem inventou a alegria
Encontra-te comigo hoje
E à luz de uma garrafa
Vamos dar a palavra aos pensamentos
Na próxima noite é a lua que nos procura.
21.11.07
Não tragam flores que eu sofro
No dia em que morresteMorri eu também a olhar para ti
Meti-me para dentro de mim
E fechei a janela
Os meus lábios sabem-me a antigo.
Nem na morte espero dormir
Vou andar pelo Mundo
Qual cadáver acordado
Porque me culpo
Os meus lábios sabem-me a antigo.
Acendo um cigarro
Se bem que não fumo
E a minha boca velada
Não dirá nada

Os meus lábios sabiam-me a antigo.
Sou feliz agora morta
Longe dessa prisão fechada
Que era o Mundo sem ti.
28.8.07
Mosca da azeitona
Estavas sentado à minha frente no comboio. Olhavas para a mulher rechonchuda sentada a teu lado, para o casal de namorados aos beijos no banco de lá, olhavas para mim sem disfarce, para o meu reflexo no vidro da carruagem, para o teu reflexo junto ao meu, e voltavas a olhar para a mulher rechonchuda sentada a teu lado. Os movimentos dos teus olhos eram hexagonais, como uma mosca da azeitona.Comecei a ficar impressionada contigo quando me apercebi que repetias os mesmos movimentos, metodicamente, sem que no entanto observasses nada. A mulher rechonchuda, os namorados, eu e os nossos reflexos, eram simples pontos de foco.
E tu, sem fisionomia, seguias invariavelmente a mesma rota sem nunca chegares a lado nenhum. Eu desviava o olhar um segundo exacto antes de me transformares num dos teus pontos de foco. Fazia-me distraída, para depois reconciliar o meu olhar em ti. Na tua camisa com a gola bem engomada que me falava do teu perfeccionismo. No teu cabelo militaristamente penteado que me apresentava o teu pai, que te deixava de falar quando o teu cabelo castanho – de encantos tamanhos – crescia uns infelizes centímetros. Barba, penso até que nunca tiveste. E tu continuavas com o teu olhar de pestanas longas e escuras perdido em movimentos hexagonais, sem nunca me encontrares a olhar para ti quando passavas os olhos no teu ponto de foco preferido. Era em mim que te demoravas mais.
Entraste no curso de medicina, porque o teu pai assim pensou que querias, ou não pensou que não quisesses. Quando tinhas quase seis anos, a meio de um jantar de família o teu pai disse-te, António, levante-se e pule até eu lhe dizer que pare. E tu pulaste, até que ele se enfadasse com o barulho dos teus pés no soalho, até que ele se incomodasse com o barulho dos teus pés no soalho.
Dei por mim a olhar para ti fixamente. Lembravas-me uma mosquinha das frutas, engrenada na sua rota sem sentido. Paravas o teu olhar na mulher rechonchuda que sentada a teu lado se agarrava a uma revista cor-de-rosa, entretendo-se com as notícias de uma tia que engordou, ou de um casal que se separou. Tu, voltavas a desviar o olhar, voltavas a apanhar o casal de adolescentes que sem pudor tentavam chegar com a língua ao céu-da-boca do outro.
Já deves ter reparado, António – quieto como és – nas tuas moscas volantes. Nas sombras que aparecem sozinhas no teu campo visual, quando ficas parado a olhar para o vazio. Tu, António – quieto como és – já deves ter notado as moscas que às vezes são pontos, outras vezes linhas, ou fragmentos de teias de aranhas, que flutuam morosas em frente dos teus olhos. Dos meus olhos. E depois piscamos e elas sobem. Desaparecem. Foi o que me aconteceu contigo. Eu distraí-me e perdi-te de mim. Levanto-me da minha cadeira, na carruagem, e sou novamente uma menina com medo de fantasmas num corredor enorme e escuro, que parece nunca mais acabar. Pisquei os olhos e desapareceste. Até voltares a aparecer no dia seguinte no jornal. Tinhas te atirado para a linha do comboio. Chamavas-te mesmo António, e tinhas quase 20 anos. Quase vinte anos e eu não fiz nada. Quase vinte anos e eu limitei-me a observar os teus movimentos hexagonais. Quase vinte anos e eu fui apenas um ponto de foco para ti. Pisquei os olhos e tu desapareceste. E eu serei para sempre a menina com medo do teu fantasma num corredor que nunca mais acaba.
24.8.07
(Sussuro) Encontrei o homem da minha vida
Não sei se sonho.Mas falo baixinho porque não nos quero acordar.
23.7.07
6.7.07
Fiiiuuu, fiuuu fiuuriiuu

Assobiar, soltar assobios, sibilar, silvar, vai tudo dar ao mesmo. Quando não somos nós a fazê-lo, irrita. E o assobio ou assovviiiiuuuu deste homem é particularmente desconcertante. O senhor é simpático, o assobio é que arrelia.
Como todos os assobios, este nasce a partir de uma produção perturbadora de som definida a partir da expiração constante de uma boca. Este senhor, semi-cerra os lábios em forma de O pequenino, portanto em forma de o, e dá início à concertina. No final do dia, como será a condição física daquela boca exaurida? Dessa boca infeliz, sacrificada, esgotada? Dessa boca que para além de instrumentalizada e escravizada é excessivamente salpicadora. Sim, quando parece que não vai piorar, piora. E o monitor do, vamos chamá-lo assim, Sr. Assobia está cheio de gotículas, pixeis de saliva, nacos do comida de ontem e retalhos do jantar de há três dias.
É grande este problema e ganha proporções titânicas quando se trabalha, como eu, num open-space com humanos-assobiadores à nossa volta. Ter por hábito direccionar o coitadinho do ar pela língua, lábios e dentes para criar a turbulência necessária e com ela gerar um som irritante, passo a redundância, irrita. É talvez das poucas coisas que me irritam. E eu, estúpida, não trouxe headphones. Sinto-me impiedosamente a ser puxada para o fiuu fiiiuuu rrriu rrriiuuu. Os meus pensamentos dissipam-se aos poucos quais bolas de sabão rebentadas por dedos inquisidores à medida em que o meu canal auditivo vai sendo assenhorado pelo fiuuu fiuuu riuuu fiuuuuuiiii. A minha sábia avó é que sabia. Dizia-me que a nossa liberdade de assobio termina quando começa a liberdade de assobio do outro. Nem mais. E eu não posso fiuuuu fiuuu riuuuu simplesmente ir lá e dizer fiuuu fiuuuu ó Sr. Assobia pára lá com fiuuu fiuuuu fiu fiuuuuuu fiuuu porque acaba por fiuuu fiuuu fiuuu rrriiiu ffiiiiuu fiiiiuuu riuuuu friu friuuu fiuuu iuuuu mmmmmm mmm fiuuuuu fiuuu mmm riuuuuu...
5.7.07
29.6.07
24.5.07
A saudade ocupa a noite toda
Mas em cada ano com a Primavera as flores aparecem, e o inverno um dia cessa.Já não
Já não quero que passes as tuas mãos no meu cabelo. Nem que olhes para mim. Já não quero que me agasalhes de promessas em noites frias. Nem ser feliz.E porque agora quero pouco, tenho tudo.
21.5.07
10.5.07
O funeral foi meu, amor.
Já se passaram tantos anos desde a última vez que te vi. Já passou tanto tempo desde a nossa última viagem de comboio. Foste tu que morreste mas o funeral foi meu. E desde esse dia, nunca mais consegui chorar. Mas quem é que chora no seu próprio funeral?12.3.07
4.3.07
As tuas palavras sobram

Passas e agitas a brisa que delira
e para ti sou sempre nova
A beberes nem me recordas
Bebes-me nos recantos em que me escondo
onde a água tem cor de vinho
e os ventos estão desatentos
E eu espero a chorar e choro um pouco mais
pelo meu homem tranquilo e transparente
que me deseja num desejo mal contido
Apagas o gosto da noite triste e lenta
e tragas as horas que findam já gastas
em nevoeiros e desencantos demorados
Desalgema-te das minhas mãos
Todos os dias imperfeitos são meus eleitos
porque a tua perfeição era mentira.
25.1.07
A tua última vez nunca é a última vez

Ondulas pelas ruas
em estradas feitas de chuva
sob céus de duas luas.
Vassalo de Rei.
Preferes a rua a um abrigo
E eu que te amo,
Tenho a vida e a morte comigo.
16.1.07
És um pequeno leao?
Filho de Mufasa e da rainha Sarabi?Está bem, Simba. Hakuna matata para ti também. Neste momento estás muito instável, é um facto. Não sabes se hás de ser engenheiro, advogado ou o sucessor do Rei Leão. Já pensaste em não ser nada disso e ires viver para uma ilha deserta, pescares o teu peixe e agarrares os teus javalis. Já quiseste ser o lobisomem porque não te dás bem com o inverno. Já quiseste ser um assassino em série para depois escreveres um livro. Já quiseste ser ladrão e sonhaste que roubavas bancos internacionais aos fins de semana. Já experimentaste limpar vidros em arranha céus, já tentaste abastecer jactos em pleno ar, e já viajaste até ao pulmão do mundo só para veres ao vivo uma anaconda. Já te imaginaste a viver numa distante cidade do Oriente, mil e uma noites. Já sonhaste que encontravas um tesouro e roubavas quarenta ladrões. Já sonhaste que combatias incêndios florestais na Sibéria, que saías à noite pela cidade a cortar cabeças, ou que passavas os dias a demolir edifícios com centenas de euros em dinamite a teus pés. Já sentiste que voavas e tens medo de enlouquecer. Em pequeno fazias experiências pirómanas com formigas e enchias folhas e folhas com textos simulados quando ainda nem sabias escrever. Numa mesma semana quiseste ser actor, fotojornalista, e piloto de testes de avião. Já quiseste conduzir veículos pesados em pontes frágeis de madeira. Já quiseste ser o homem aranha. Já quiseste ser lenhador, correspondente de guerra, e bombeiro pára-quedista. Está bem. Neste momento ainda te sentes instável. Mas já sabes que queres ser copywriter e estás ansioso pela batalha final. Ou te cortam a cabeça, ou te tornas imortal.
11.1.07
A minha mae costuma dizer
Laranja de manhã é ouro, à tarde prata e de noite mata.Acho isso muito estranho. Nunca ouvi falar de alguém que se tenha tentado suicidar com dois copitos de sumo de laranja.
29.12.06
Supersticoes
Muitas sao as simpatias para o ano novo comecar bem e terminar em grande. Vou deixar-vos uma, para quem quiser atrair o grande amor. Descalce-se e acenda uma vela. Depois de acesa, derrame mel em volta da vela, quatro búzios, quatro moedas de mesmo valor e oito ou dezesseis rosas amarelas (tenha cuidado para nao serem desassete rosas amarelas senao em vez de um grande amor, aparece uma grande lapa). Sete voltas ao pé coxinho. E tem de ser com o pé direito (quem só tiver um pé está tramado, porque se saltar com o pé esquerdo em vez de um grande amor aparece um assassino em série). Atire pétalas por cima da sua cabeca enquanto grita, virado para noroeste: Devo ser mesmo totó para acreditar nisto. Se gritar bem alto, encontrará o amor da sua vida e terá uma vida sexual mais-que-perfeita para o resto da suavida. Um beijinho bem grande, entrem bem no ano 2007. Com saúde, amor, família e amigos.
4.12.06
E chove

Tu perguntas e eu não sei,
Eu também não sei o que é a chuva.
O meu eu desencantado diz-nos,
É talvez o céu que chora.
28.11.06
20.11.06
Tipos de casas
Há casas de botõesHá casas tipo casulos
Há casas tipo cápsulas
Há casas tipo campas
Há casas abandonadas
Há casas de campo
Há casas de cidade
Há casas abertas
Há casas com janelas
Há casas de bonecas
Há casas de miniatura
Há casas em papel
Há casas em playmobil
Há casas contigo
Há casas sem ti
Há casas comigo?
18.11.06
8.11.06
2.11.06
Tal cidade de Deus

Eu e o Stephan fomos assaltados dentro do autocarro nas ruas de Salvador. E é sobre o assalto que vos vou contar agora, porque dele nos ficou uma imagem forte. A do revólver apontado para nós. A incerteza do que ia acontecer. O cheiro do medo espalhado pelo autocarro, distribuído nas caras das pessoas e ouvido em choros contidos de duas criancinhas que, pelo que eu tinha ouvido antes numa conversa, iam passar a tarde no zoológico de Salvador.
Éramos uns 15 passageiros. O autocarro, ou ónibus como os brasileiros os chamam, ia de Vilas (onde tenho casa) para a Sé (onde fica o Pelourinho). O autocarro ia pela Orla e eu mostrava ao Stephan as melhores partes da terra onde eu nasci, quando 3 homens armados entraram e iniciaram um assalto. Foram 20 minutos de terror. Um deles foi controlar o motorista e trancou as portas, o autocarro continuou o seu percurso mas sem parar para deixar sair ou receber nenhum passageiro. Uma mão vinda não sei de onde arrancou a máquina de fotografar digital das mãos do Stephan e a nossa primeira reacção foi puxá-la para nós, até que nos apercebemos de que era um assalto e que não se deve nunca resistir. Demos-lhe a máquina. Outro deles sentou-se ao meu lado, sacou do revólver preto e sujo, com um cano comprido e apontou-o para o meu estômago. Passa tudo, passa tudo, passa tudo, disse o homem aos berros. Eu falei-lhe com sotaque brasileiro para me fazer passar por local e disse que era de Salvador (o que até é verdade), que ele dissesse o que queria que nós dávamos tudo. Ele apontou para o Stephan, que é alto, louro e tem ar de austríaco (talvez por ser da Áustria) e gritou-me, Dá o relógio dele, o relógio dele. Eu traduzi, The watch, the watch, com o mesmo desespero do homem que mo pedia. O Stephan tirou o relógio do pulso o mais depressa que conseguiu e atirámos o relógio para uma mochila que ele com a outra mão segurava. Os ténis, dá os ténis, apontando para os ténis do Stephan com a arma. Ele desatou os atacadores dos ténis em segundos que me pareceram minutos, tirou-os, passou-mos e eu passei-os atabalhoadamente ao homem, que tinha os olhos vazios e o dedo no gatilho. Eles não têm nada. Não têm nada a perder. Depois de guardar os ténis na mochila, ele gritou, O celular? Passa o celular dele. O Stephan tinha o telemóvel no bolso das bermudas, e eu disse, Não temos celular, não temos mais nada. Eu tinha um saco velho de plástico amarelo entre os pés (resolvi levar tudo num saco velho para não chamar à atenção) e nele guardava os nossos passaportes europeus, mais 200 reais e a minha câmera de filmar digital. A câmera fotográfica que nos foi roubada ia na mão, porque era o primeiro dia do Stephan em Salvador, estavam poucas pessoas no autocarro e cidade tem uma Orla que convida a fotografias. O homem, com a arma agora apontada ao meu estômago gritou e repetiu, E esse saco aí? Que tem? Passa tudo, senão eu passo vocês. Eu estendi-lhe o saco e disse, abanando o saco sem lho dar, Só tem comida, não tem mais nada não, vocês já levaram tudo. Ele desprezou o saco e eu pousei-o como se não tivesse medo que mo tirassem. Deixei-o ali, à mão para quem quisesse levar. Não levaram. Ele levantou-se e continuou o assalto.
Depois de assaltarem todas os passageiros, destrancaram as portas, saíram a correr do autocarro e nós voltámos a respirar. As coisas materiais, o que são? Estamos vivos para contar a estória e por isso digo-vos, Foram-se os anéis, mas ficaram os dedos.
26.9.06
De alma recolhida
O quarto estava frio. O quarto estava frio e ele lia, As armas e os barões assinalados que da Ocidental praia Lusitana por mares nunca dantes navegados passaram ainda além da Taprobana em perigos e guerras esforçados mais do que prometia a força humana. O quarto estava frio, ele lia, e as cortinas tocadas pelo vento encostavam-se às janelas. Ora cresciam onduladas. Ora diminuíam encolhidas. O Ricardo esticava o braço, a mão e as pontas dos dedos. O Ricardo recolhia o braço. O Ricardo recolhia os olhos. E levava novamente o olhar para, Aqueles que por obras valerosas se vão da lei da Morte libertando.Quando a luz já não o deixava ler, guardava o livro na cómoda e as mãos quietas debaixo do lençol. Fechava os olhos castanhos de tristezas tamanhas e inspirava fundo, desconfortavelmente bem fundo. Sentia dores nas pernas e comichão nos pés. Ignorando-as, recolhia as lágrimas que já lavavam os olhos, ajeitava a almofada e adormecia. As lágrimas juntavam-se e formavam rios, dos rios cresciam mares. E as sombras do vai-e-vem das cortinas continuavam.
De olhos fechados, o campo era largo, a noite escura e ele corria. Tinha 6 anos e brincava com os amigos aos invasores. Enquanto todos se defendiam ele atacava, porque a mãe sempre lhe disse que, A melhor defesa é um bom ataque. E ele sempre ouvia a mãe. Por isso, escondido atrás de pedras e buracos que faziam de trincheiras, soltava um grito de guerra e saltava vitorioso de espingarda na mão em forma de cajado, numa investida que lhe valeria depois uma cicatriz. A correr, saltou em falso e os pés e as mãos correram no ar, até caírem com o resto do corpo na vala. Arrancou os olhos do chão e depois as silvas das pernas e dos braços. Não chorou. A saliência estreita na perna direita passou a fazer parte dele. E para adormecer, enquanto uns contavam carneiros, ele passava a mão na cicatriz até adormecer.
A mãe entrou no quarto e disse, Bom dia. Ele não a ouviu. Abriu as cortinas do quarto e prendeu-as com as fitas. Deu-lhes dois laços. Queria que o Ricardo olhasse pela janela. Que ele ainda quisesse ver tudo, tocar em tudo. O Ricardo, que tinha os olhos nas pontas dos dedos. O Ricardo, que se entretinha a observar as pessoas e a calcular-lhes a vida pelos olhos, pelas roupas, pelo andar. Que corria em vez de andar. Que se ria em vez de sorrir. Prendeu as cortinas com as fitas e deu-lhes dois laços. Porque ela queria o Ricardo como ele era antes de ter tido o acidente. Antes de lhe terem amputado as duas pernas abaixo do joelho por causa de um acidente de mota. Antes de lhe terem cortado as pernas abaixo do joelho por causa de um homem que vinha em sentido contrário num carro roubado. Por causa de um homem que saiu ileso do acidente, sem uma cicatriz. Por causa de um homem que ainda pode andar e ainda conduz por estas estradas de Lisboa. O Ricardo ainda precisa de tempo para se habituar. Para se esquecer que teve pernas durante 21 anos ou para aprender a viver sem elas o resto da vida. Tens de reagir, disse-lhe a mãe ao prender as cortinas com as fitas. Ele não a ouviu. Não a ouve nem ouve ninguém. E com as dores do passado, deixa-se todas as noites adormecer. Mas temos de lhe dar tempo. Porque ele ainda sente dores nas pernas que não tem. Comichão nos pés que não tem. Ainda sente vontade de adormecer a passar a mão na cicatriz da perna que não tem.
Falta qualquer coisa neste texto para o fechar, mas não o consigo acabar. A mim, faltam-me as palavras. Ao Ricardo, faltam-lhe as pernas.
15.9.06
Silencios que te falam

Para ti tenho palavras e silêncios.
Mais silêncios que palavras.
Palavras tímidas que se embrulham na minha língua.
Que se escondem nos meus dentes e não se deixam sair.
Para ti tenho palavras e silêncios.
Ortografias comprometidas. Sintaxes desconhecidas.
E tu sorris mesmo quando não ouves nada.
Lês-me entre silêncios.
Amas-me entre palavras.
14.9.06
Quartos sem quadros
Do dia 13 ao dia 20 de Junho de 2004, estive deitada numa cama do hospital Santa Maria.
Sete dias fechada num quarto cinzento ou branco-sujo sem janelas.
Sete dias fechada entre quatro paredes que não me falavam. Nem respondiam.
Oito noites de cheiros de remédios e adormecida pelas vozes doridas dos doentes que também passavam os dias e as noites deitados em quartos cinzentos ou brancos-sujo sem janelas.
Durante uma semana não vi o contorno castanho dos galhos das árvores nem o contorno das folhas verdes no céu.
Durante uma semana os meus cabelos nunca me foram parar à boca com o vento. Nem uma vez fiquei com os cabelos cheios de nós por causa do vento.
Durante uma semana os meus olhos nunca se ressentiram com a luz do sol. Nem uma vez franzi a testa ou cerrei os olhos por causa da claridade. Durante uma semana os meus pés só sentiram o frio do lencol sem cor da cama do hospital ou o chao frio do hospital sem cor, quando me levavam da cama para a cadeira, ou quando eu ia da cadeira para a cama.
Quando saí do hospital, sete dias e oito noites depois de ter sido operada de urgencia ao ovário direito, cada pedacinho de normalidade se tinha transformado em felicidade.
Sou muito mais feliz agora.
13.9.06
Sinto-me uma criancinha com varíola
Dizia eu que não acredito em amor à primeira vista.Mas Salvador Dali já desenhava a figura de Gala antes mesmo de ter falado com ela. E mesmo depois de Gala ter morrido, nunca nenhuma outra chegou para a substituir. A Gala não era um pneu furado.
Mas dizia eu que não acredito em amor à primeira vista. Por isso, acho que nem sei como te explicar. Conheces o método de vacinação usado pelos antigos chineses contra a varíola? Estranhamente, eles trituravam as cascas das feridas provocadas pela doença, onde o vírus estava presente apesar de morto, e através de um cano de bambu, sopravam esse pó para dentro das narinas das criancinhas.
Foi assim que me senti. Como se te tivesses soprado para dentro das minhas narinas, quando disseste olá e te apresentaste. Senti o cheiro das tuas palavras e como quem estala o polegar e o dedo médio, inclinaste-me para ti. Apeteceste-me, e como uma maçã verde, depois de mordida, espalhaste-te dentro da minha boca livremente.
Pois é, dizia eu que não acredito em amor à primeira vista. Por isso, passa por mim outra vez.

Dali. The Persistence of Memory (1931). Também chamado de Soft Watches ou Melting Clocks. Contra a ideia de que o tempo é rígido ou determinante.
11.9.06
Porque ainda vais a tempo
Ainda ficas parado a olhar para a neve a cair?Ainda queres tocar em tudo?
Ainda gritas quando estás feliz?
Ainda te deixas ficar encharcado à chuva?
Ainda te sentes a corar quando te despem de pensamentos?
Ainda gritas numa casa vazia para ouvires o eco da tua voz?
Ainda acordas com vontade de brincar?
Ainda te ris sem conseguires parar?
Ainda fazes castelos na areia?
Ainda acreditas em contos de fadas?
Ainda te apaixonas como se fosse a primeira vez?
Ainda corres para chegares mais cedo?
Ainda queres saber tudo?
Ainda te faltam as palavras?
Espero que ainda digas que sim.
Admiro os que nunca se habituam ao mundo.
6.9.06
O que sentes?
Quero para mim o teu amorSó quero tornar-nos grandes
Crescer tanto quanto tu cresces em mim
Como será por dentro de ti?
Ao certo sabemos apenas o que há dentro de nós
E eu sem ti nem sei de mim.
Encosto a minha barriga à tua
E eis que a memória dos mortos desaparece.
4.9.06
À minha Avó, a quem chamo de Mãe
Composição:Os meus 5 anos
Tenho saudades da criança que fui. Já tenho 25 anos, faltam-me cinco anos para os 30 e já passaram vinte anos dos meus 5. Já passaram 20 anos desde que éramos seis pessoas em casa e seis pessoas no carro, seis cadeiras na mesa de jantar e seis pratos para as minhas mães lavarem. Já passaram duas décadas desde o meu primeiro dia de escola. Desde o dia em que chorei os rios do mundo quando tu e os meus pais me deixaram à porta da sala 1, e eu pensei que nunca mais vos ia voltar a ver. Desde o dia em que me fizeste lavar a boca com sabão azul e branco por ter dito uma palavra má. Desde os dias em que aprendi contigo a rezar, a agradecer e a acreditar em Deus. Já lá vai tanto, mas tanto tempo desde aqueles dias em que o meu irmão Bruno me ia buscar à escola e me fazia cócegas com o dedo mindinho no meu pequeno pulso, sempre que me dava a mão para atravessar a estrada. Já lá vão 20 anos desde os dias de composições sobre As minhas férias, O que quero ser quando for grande, ou Se eu fosse uma árvore. Já lá vai tanto tempo desde aqueles exercícios ortográficos com 0 erros ou desde o meu primeiro T.P.C.: fazer cinco linhas da letra i, sem esquecer de fazer a pintinha do i. Vinte anos desde aquele dia em que me sentei na minha cadeira de madeira nova, na minha secretária nova, toda orgulhosa porque já andava na escola. Já passou tanto tempo, desde aqueles tempos em que demorava tanto para adormecer. Desde os tempos em que não gostava de comer. Desde aqueles dias em que pensava que todas as pessoas do mundo eram boas.
Agora tenho 25 anos, e aconteceu tudo tão depressa. Quero que a vida pare, e volte atrás só mais uma vez. Tenho saudades da criança que fui. Quero voltar a andar de bicicleta no parque, aos Domingos de manhã com o meu Pai. Quero voltar a ir uma vez por semana com a minha mãe ao cinema nas Amoreiras. Quero que me voltes a mandar reescrever um texto de página e meia só para fazer a letra f mais bonita. Quero voltar a espreguiçar-me no teu colo, enquanto me chamas de Salsa Parrilha, Panqueca Dourada ou de Meu Filho. Quero voltar a acreditar na bondade de todas as pessoas. Quero voltar a ficar nervosa com o primeiro dia de aulas. Quero voltar a discutir com os meus irmãos e acabar a chorar, e que o Pedro brinque comigo aos teatros. Pedro, brinca comigo aos teatros! Quero acordar aos Sábados bem cedo para ver os bonecos e voltar a ficar indecisa: brinco com os Legos ou com os Playmobis?
Agora, tenho 25 anos, e fico nervosa com o primeiro dia de trabalho. Já tenho casa, e já pago contas. Os meus irmãos casaram, o meu afilhado Marcos nasceu, e eu tenho o meu Amor comigo. Agora, dou jantares em minha casa com as mesmas cinco pessoas da minha vida, mais 4. Ponho eu a mesa, são 9 pratos e um deles é bem pequenino. As vezes, ainda vejo desenhos animados aos Sábados de manhã, e ainda discuto com os meus irmãos e choro. Ainda dou a mão quando atravesso a rua e ainda tenho o pulso fininho. Ainda demoro a adormecer...
Vendo bem, sou a mesma criança que fui. Já não tenho saudades de mim. A vida é tão bonita como dantes, só diferente.
Os meus dias só contam quando estás
Passei a noite toda sem dormirA tentar enganar-me
A tentar convencer-me de que estavas aqui ao pé de mim
Passei a noite toda sem dormir
A sonhar que a minha perna era a tua
Que a minha mão era a tua
Às vezes penso que preferia não ter de te encontrar
Para não ter de te deixar
Porque os meus dias só contam quando estás
Pergunto-me a mim mesma devagar
Quando vens para ficar?
2.9.06
18.7.06
Escrevi-te
Tantas vezes inundada em lágrimas.Tantas vezes aos gritos.
Tantas vezes em noites caladas.
E pedi.
Pedi tantas vezes que fosses meu.
Pedi tanto que fosses meu.
Só pedia que fosses meu.

Agora quero estar só.
Secar.
E amar este choro sem lágrimas.
14.7.06
Voltei a acreditar em fadas
(Dizes-me) Shhh, não contes a ninguém.E esticas o teu dedo indicador encostando-o aos meus lábios.
Não conto, Amor. Mas voltei a pensar em fadas. Em pós mágicos. Em sapatinhos de cristal.
(Dizes-me) Shhh, guarda-nos para ti.
E a minha boca reage aconchegando-se à tua.
Não conto, Amor. Mas voltei a acreditar em fadas. Em vestidos prateados. Em príncipes encantados.

(Digo-te) Shhh, não contes tu também a ninguém. E o teu corpo volta a procurar o meu. Não contes, Amor. Porque eu voltei a falar com fadas. Voltei a sonhar com castelos. Porque a vida é um conto de fadas e eu tenho medo de quebrar o encantamento.
11.7.06
Silencio frio
Escuto o pestanejar pausado dos teus olhos e o silencio de cemitério do nosso campo de batalha. Vejo a tua boca que se vai silenciando. Assisto resignada ao teu olhar que se transforma em pedra. E deixo de sentir o teu corpo já translúcido.Fico aqui contigo.
Fico aqui contigo com o meu ouvido junto ao teu peito.
Escuto-te até que deixes de bater.
Até que me deixes de bater.
Até que me deixes finalmente morrer.
29.6.06
Ouve-te

Os teus heróis são fantasmas.
São mortos-vivos.
Que entram em guerras sem saber porque lutam.
De lá de cima

Volto a cair e ensaio um sorriso com o desassossego de o mostrar firme.
As minhas lágrimas já nem correm. Já nem fogem de mim. Resolveram ficar, para me fazerem companhia.
E eu digo, Agora já ninguém me magoa.
21.6.06
Posso?

Voar por cima das ondas?
Salpicar-te de mim?
Agarrar uma nuvem ou duas?
Contar-te um segredo?
Lua Amarela
5.6.06
31.5.06
Amei o desenho que fiz de ti

Ontem recebi-me de volta.
Porque a minha alma me foi devolvida.
Morada inexistente, dizia o aviso.
E com a minha alma comigo, fui pela última vez até à areia onde fizemos o nosso primeiro nós.
Naquele dia que dizes que confundo sempre, mas que nunca sai de mim.
E que impiedosamente se encosta a todos os outros dias do ano. De todos os anos.
Fui até lá e despedi-me de nós.
Despedi-me de nós.
Despedi-me de nós.
Porque é que por mais que insista, isto me parece mentira?
30.5.06
E um som muito fino ao longe acompanha o meu pensamento

Sinto-me assim
Um vidro com medo de partir
Uma lágrima pronta a ser chorada
Só uma metade de mim a sorrir
Sinto-me assim
Débil
Uma alma esgotada
Uma menina pequena enamorada
Um corpo que se deixa cair
Sinto-me ténue
Sinto-me tua
Não me expulses de mim.
29.5.06
Aromia Moschata, da família das Longhorn Beetles

Tirei o Sábado para ir com o Lobo Antunes até à Riviera – a minha praia. Estava um calor daqueles que nos obriga a estar sempre a rodar tipo espeto na brasa. Tirei o carocha da garagem e fui a vinte à hora até à praia. No bar da Riviera comecei a ser causticada por pintas pretas em todo o corpo que depois de analisadas atentamente por mim, se transformaram em insectos pretos e peludos. Não me considero uma miúda da cidade mas quem me conhece sabe também que não sou um bicho do mato, por isso apercebi-me que o melhor para mim e para os bichos era um de nós mudar de lugar. Eles não se sentiram incomodados comigo, por isso, respeitei o ditado popular e mudei-me. Peguei na mochila, na toalha amarela e no Lobo Antunes e fui para a areia terminar de comer o hambúrguer com batatas fritas. Saudável, sentei-me na toalha e em poucos segundos a toalha ficou preta com as mil patas de cada insecto. Enojada, sacudi-me e despi-me, como se estivesse atrasada para nascer, e nos meus mil-pés fui a correr para o mar. Mergulhei, nadei debaixo de água e vim à tona no local errado. Ia esbarrando com um cachalote. Tinha uma boca com dentes numerosos e bem desenvolvidos na maxila inferior e poucos ou nenhuns na superior. Quando voltei à toalha, já não havia hambúrguer para ninguém, já tinha deliciado os animais invertebrados da classe insecta, essa família com membros versáteis e diversificados, que quando reunida são mais do que todos os outros grupos de animais juntos. Para onde quer que olhasse no meu corpo via esses energúmenos superorganismos. Assemelhei-me a uma estância balnear no Algarve em pleno Agosto. Resolvi saltar do barco e mudar-me outra vez. A toalha, antes amarela, abandonei-a à sua sorte. Disse-lhe, Vira-te. E fugi para o estacionamento de terra, a perguntar-me se os bichos existiriam mesmo ou se seriam proveito da minha imaginação maléfica, porque mais ninguém parecia dar conta dos pontos pretos voadores. Depois de ter dado umas moedas ao velhote que nos costuma habilmente ajudar a encontrar um lugar perfeitamente visível, não resisti, olhei para todos os lados e vendo-me sozinha, decidi-me e perguntei-lhe, como quem não tem muito interesse na resposta nem duvida se estará a alucinar, Diga-me uma coisa, consegue ver estes bichinhos aqui? E ele tranquilizou-me quando disse, São insectos minha menina, não se preocupe, são só insectos. É do calor, é do calor. Ainda estou para perceber porque é que a partir de uma certa idade nos tornamos repetitivos. Será surdez ou amnésia? Será surdez ou amnésia?
Estive uns quantos minutos a sacudir-me agressivamente, e entrei no carocha. Fui para a praia do Castelo, cujo nome me faz sentir estupidamente segura. Trouxe o Lobo Antunes perto do peito, e levei a toalha vermelha que trago sempre no carro, qual pneu sobresselente. Na praia, deitei-me, levantei-me e fui novamente a correr para a água. Estive duas horas seguidas em pé na água, a tremelicar, e a sacudir-me dos insectos que pareciam confundir-me com mel. Ainda levei um ou outro piropo primário dos banhistas, cujos camiões estavam mal estacionados perto da praia, e que me disseram por duas vezes, pecando na originalidade, Sabe, é que a menina deve ser muito doce. Contrariamente ao que se espera de uma praia com o nome de Praia do Castelo, não vi príncipes encantados, só sapos com verrugas e novamente uns quantos cachalotes com fios de ouro pendurados ao pescoço e tatuagens a louvar as mães facilmente confundíveis com nódoas negras. Não vi príncipes, vi apenas um rapaz a ler a Bola, outro a ver a Maxmen, um homem a rodar o piercing do mamilo. Do dele, vá lá. Vi uma cachalote femea e velha a fazer topless de fio dental harmoniosamente bem escondido entre as peles. Um rapaz de uns 20 e poucos anos a ser barrado com creme protector nas costas, nos braços, na cara e no peito, pelo pai. Vi de tudo, só não vi um único príncipe. O Lobo Antunes também não ficou muito contente com o dia de praia na Caparica, porque eu tinha lhe dito que estaria horas deitada, com o meu biquíni vermelho a comer com ele os bolinhos que acabei por não levar à minha avó, lendo-o de um lado ao outro, e o coitado do Antunes acabou por passar o tempo todo na areia, sozinho e varrido pelo vento, pela areia e pelos insectos.
25.5.06
Respiramos 24 mil vezes por dia

Sento-me num espacinho e cruzo as pernas. Penso se posso mantê-las assim, porque isso equivale a revelar as meias, e nem sempre as meias combinam com o resto da roupa. Descruzo as pernas, junto os joelhos e apoio os pés nas pontas dos dedos, guardados e amolgados dentro dos ténis. Senta-se uma senhora de uns 60 e poucos anos, mais ruga menos ruga, encharcada em perfume barato que escorre em gotas rechonchudas pelo colo. Sigo com os faróis dos meus olhos as lágrimas perfumadas que descem timidamente por entre os sulcos, e que acabam por manchar o decote em V da camisa preta com letras prateadas. Tento não respirar. Começo a pensar que esta mulher do decote e todas as mulheres e homens deste país que se sentam perto de mim, estão profundamente comprometidos na senda de poupar água. Para compensar, abusam dos frascos rumo à overdose. À minha overdose.
Vejo o metro como uma loja de perfumes. Sou constantemente canhoneada por cheiros que se misturam, provocando um efeito ainda mais derrubador. Inalo e exalo cada vez menos do ar conturbadamente perfumado e no intervalo automático descanso um pouco, para depois ser repetidamente atacada pelos perfumes que não são bem vindos. Maldigo a minha sorte. Difamo o metro. O início do dia. Quero morder as pessoas que usam perfumes. Apedrejo tudo.
Amuada, fecho os olhos e deixo de respirar. Escondo-me nesta cegueira imposta por mim, para folgar e abstrair-me de todos os olfactos e movimentos. De mal com a vida e com vontade de matar a velha, refugio-me no escuro até os meus pensamentos serem calados por sete batidas fortes em staccato. As sete pancadas sucessivas parecem aproximar-se e passo a ouvir a voz que as acompanha e que me faz abrir os olhos. Tenha a bondade de me auxiliar, por favor. – Diz o homem de óculos escuros, que lhe escurecem a paisagem sempre escura, com o braço esticado para a frente e a cabeça inclinada para trás, agarrando com a mão direita a bengala que o conduz.
Voltam as sete pancadas no chão, e eu sinto-me tão pequena que parece que caibo na palma da minha mão.
22.5.06
Ressaca de ti

Aquele copo ali na mesa que enche e se esgota em ti.
Gosto dele.
Bebe-me mais um pouco.
Aquele teu andar que encurta as distâncias e te faz misturar o teu lugar com o meu.
Gosto dele.
Bebe-me mais um pouco.
Aquele teu braço que faz a tua mão aproximar-se dele e aproxima a tua boca de mim.
Gosto dele.
Bebe-me mais um pouco nesse arriscado copo.
Bendita assombrosa lucidez do álcool.
Que te faz querer-me como eu te quero em água.
19.5.06
Uma cereja, duas cerejas

A propósito do eterno retorno, deixem-me ainda contar-vos uma coisa. Antes disso, quero esclarecer-vos. Esta imagem, infelizmente, foi roubada a um banco de imagens.
Ontem, recebemos gentilmente do presidente, administrador e um dos accionistas da agência onde trabalho, uma caixa de madeira cheia, sobrecarregada de cerejas. Eu nunca tinha provado uma na vida. Não porque nunca me tivessem oferecido, mas porque eu dizia rapidamente: Não, obrigada, só gosto de uvas. E não, nunca tinha provado. O Paulo, director estratégico e amigo, obrigou-me a provar uma. Obrigou-me mesmo. A princípio a minha cara distorceu-se ferozmente, os olhos trocaram de lugar e a boca sofreu um espasmo interessante, mas como disse Fernando Pessoa a propósito da Coca-Cola (isto é quase uma obsessão), primeiro estranha-se, depois entranha-se. Lá gostei da cereja.
A caminho de casa, levava pelo Chiado a caixa com as cerejas quando ouvi um polícia a comentar que já era a terceira pessoa que via a descer a rua com cerejas e que devíamos estar a comprar em algum lado. Não resisti e satisfiz-lhe a curiosidade: deram-nos no trabalho, foram oferta. – E dei cabo da minha vida quando, sendo mais forte que eu, lhe disse: Quer uma? – Ele aceitou e agradeceu. Eu afastei-me e ouvi-o a comentar para o amigo, que era diabético e por isso recusou a cereja: A terceira pessoa a descer com cerejas, mas a primeira a oferecer. Simpática a miúda.
Ouviram coleguinhas?
Pois é, entrei num caminho sem saída. Depois de ter oferecido a primeira cereja e vendo-me com uma caixa cheia delas, comecei a sentir a pavorosa vontade de oferecer a toda a gente. Dei umas quantas ao senhor que está perto do metro a pedir, todos os dias de manhã e às vezes a esta hora. Depois, estava parada já dentro da estação da Baixa-Chiado (estação terminal, façam o favor de abandonar a carruagem), quando um rapaz começou a babar-se, também compulsivamente, a olhar para a minha caixa de cerejas. Eu, sem me conseguir conter mais uma vez, ofereci-lhe uma. Ele não aceitou. Continuou a babar-se.
Entrei no metro. Sentei-me a um cantinho e foi a minha sorte porque só consegui oferecer cerejas a 7 pessoas com o meu: Querem uma cereja? Podem tirar à vontade. – A princípio pensaram que eu tinha perdido a noção da realidade (a realidade do não se dá nada a ninguém, só se vende). Depois, pensaram que eu era muito má e qual bruxa má sem maçãs, tinha envenenado cada cereja e por isso estava a oferecer com um sorriso tão aberto. E eu com os braços estendidos e a caixa a pesar-me cada vez mais. Até que me devem ter olhado para os meus cabelos e qual Rapunzel já lhes pareci doce, e aceitaram. O senhor que estava sentado ao meu lado tirou duas, e parecia não estar saciado. Eu fiquei contente, por ele se sentir à vontade para tirar mais, e quando, nas Laranjeiras (era fixe se tivesse saído nas cerejeiras) ele se levantou das cadeiras cómodas do metro português e se preparava para ir embora, disse-me em voz baixa: Deus a abençoe pela sua liberalidade.
Quando cheguei a casa fui a correr para o dicionário. Liberalidade: s. f., qualidade do que é liberal; generosidade. Fui pesquisar o significado de liberal. Liberal: do Lat. Liberale, adj. 2 gén., próprio de homem livre; franco, generoso, amigo de dar. Sim, gostei. Sou uma cherry. ;)
Diz o ditado popular que as palavras, ou as conversas são como as cerejas: vêm umas atrás das outras. É bem verdade. Senti-me compelida a dar umas atrás de outras. Juro que tentei controlar-me. Mas não somos todos, um pouco ou muito, obsessivos-compulsivos?
A Lei do Eterno Retorno
E se um dia ou uma noite se alguém se esgueirasse na tua mais solitária solidão e te dissesse: Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes. E não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande na tua vida há de retornar a ti, e tudo na mesma ordem e sequência.(Nietzsche, sobre o eterno retorno)
Hoje lembrei-me do eterno retorno. E porque nenhuma das leis da sabedoria oculta é mais mal interpretada do que a lei do Eterno Retorno, achei que devia lançar o tema aos crocodilos. Tão feio, Sofia, chamar os teus leitores de crocodilos. Achei então que devia lançar o tema aos meus queridos leitores. Muito melhor.
Podemos cair no erro de pensar que a lei do eterno retorno significa que os mesmos eventos regressam no tempo, ou que se ficam a repetir eternamente, indefinidamente. Não.
Significa que a eternidade abarca o tempo, e o passado todo e o futuro todo estão contidos no momento eterno. No agora. E por isso, torna-se natural que os padrões das coisas passadas se mostrem no presente, ciclicamente. Os padrões, não os acontecimentos. E frequentemente as personagens trocam de lado, por exemplo, se uma dada altura os romanos invadiram os países bárbaros, noutra altura fora invadidos pelos bárbaros visigodos, experimentando o mesmo tipo de terror, quando foram saqueados e assassinados. Experimentam os mesmos efeitos das acções que produziram noutros.
E onde isto vai parar, dilectos amigos? À lei de ouro comum a todas as religiões, mas praticamente nunca respeitada: Não faças aos outros o que não queres que te façam. Porque todas as energias que libertarmos voltam para nós como um boomerang. Vermelho, porque é a minha cor preferida. Na verdade, todas essas leis fundamentais do universo estão interligadas, para mim. A lei do Karma, dos Ciclos, por exemplo.
O que se passa é que, nesta visão, cada pessoa traz gravado em si, tudo o que fez e o que deixou de fazer no passado, todas as alegrias e sofrimentos passados, que se mesclam com o futuro. O que forma o presente é a maneira como o passado se desdobra e produz eventos. E ao extremo, podemos dizer que conseguimos alterar o passado. A maneira como reagimos ao passado, e o que aprendemos com ele faz com que possamos alterá-lo. Não os factos, mas os padrões. Não podemos mudar os factos passados, lógicamente, nem podemos impedir que os padrões do passado voltem e afectem nosso presente. Mas como o passado está contido no presente eterno, ao mudar o presente, estamos a acrescentar algo novo a este passado e então, de alguma forma, mudamos o passado, ao modificarmos esses padrões no presente. Ao fazermos isso, mudamos também o futuro. Grande mistura de livre arbítrio e determinismo, não? ;)
17.5.06
Nem cedo, nem tarde
Depois de encharcar a areia e tomar conta da praia, a onda recolhe-se.É esta a hora. Interminável hora.
Que atira para longe o que está tão perto.
O mar faz-me sempre sorrir por nada.
16.5.06
Sentir borboletas no estomago, é tão bom

As pessoas que se fecham às 24 chaves, incomodam-me.
Sorrir a 180 graus, é tão bom.
Diz-me porque te prendes tu a uma balança?
A uma lista de prós e contras?
Porque é que calculas tudo, ao mais último detalhe?
E calas o teu coração, quando ele é o único a dizer-te o que te faz feliz?
Os teimosos incomodam-me. Os que não querem ver. Os que optam por dormir sobre o assunto. Os que tentam adiar. Os que escolhem não crescer. Os que têm medo de se magoar. Os que não se descontrolam. Os que preferem perder do que arriscar.
Incomodam-me os que preferem as qualidades do método romano contra o calor. Sim, acho que é isto. Os que preferem manter a casa fechada contra o calor de Agosto para que o ar vivo e quente da rua não entre. E que só abrem as portas de par em par à noite, para entrarem os ventos.
E depois, o que fazes se um dia parar a ventania?
15.5.06
Quero-te
Sentada naquele banco alto que parecia que me ia deixar cair, disse-te numa noite: consigo tudo o que quero.Tu sorriste e mostraste-me bem o quanto eu estava enganada.

E eu caí.
11.5.06
9.5.06
8.5.06
Super-homem estúpido
Não conheço bem este rapaz. Foi-me apresentado depois de um jantar de turma. Uns meses depois vi-o perto do bar da minha discoteca preferida. Eu estava à espera da minha Coca-Cola e ele à espera de uma dose de cocaína.As noites dele são passadas a vaguear nos bares e nas discotecas, de casa de banho em casa de banho, para dar um risco, como ele diz. Sente-se mais seguro de si, vê-se como uma pessoa sumamente competente e capaz. Sente-se num estado permanente de euforia e bem estar. Mas isso é o que se passa na banda desenhada dele. Porque a realidade é o que todas as outras pessoas observam. No Sábado passado vi-o a andar na rua, muito divertido, a rir-se e a falar. Sozinho. Anda de bicicleta no meio da rua, alcoolizado e drogado. Umas vezes cai, e às vezes adormece na rua. Ainda nenhum carro lhe passou por cima.
Todos nós temos os nossos problemas. Por vezes muito graves. Mas não adianta varrer o lixo para debaixo do tapete, fechar os olhos e procurar nos cogumelos, no LSD, no MDMA e nas substâncias afins o efeito mágico que faça desaparecer todas as preocupações. Os efeitos das substâncias não podem ser previstos. E a verdade é que nada desaparece, as substâncias não resolvem nada, só desencadeiam mais dificuldades, e as pessoas afastam-se cada vez mais da realidade.
Entram num barco para irem visitar aquela ilha bonita. Curtir um bocado da vida que dizem ser dois dias. Depois não conseguem voltar. Ficam lá, naquela ilha que afinal não existia.
E depois a vida acaba num destes dias.
E eu lamento.
5.5.06
No escuro vou deixar de te ver
Quando nos encontramos no 202, é sempre tão cedo ou tão tarde que somos como dois evadidos que se descobrem na noite fugitiva.Subimos para o nosso esconderijo e tu roubas-me as roupas. E com elas vai errante o músculo que bate ansioso por ti em mim.
Deitada ao teu lado, o meu corpo é a extensão do teu. E pela janela semi-aberta vejo os ramos das árvores pouco nítidos contra a cor do céu. Contra a cor da tua cama.
Deixas-me o corpo dorido.
E descubro que nos teus lábios é o sabor da dor que me atrai.
Extrais-me o sangue em movimentos ritmados e roubas-me o corpo num assalto desigual.
Eu roubo-te as roupas. Tu roubas-me a alma.
Ladrão.
Fechaste-te em mim e fugiste.
Foges de mim ou de ti?
4.5.06
Ich vermisse Dich
Ich wollte du sein, an mich zu denken.Ich soll wissen, wenn ich an dich denken muss, seiend ich.
Zu welcher Seite lässt unseren Fluss laufen?
Ist unser Schicksal zum Trocknen oder Überlaufen?
Trocknen mich folglich, mit viel getan und alles sonst dennoch getan zu werden.
Ich sehe deinen und meinen Tagesungültigen Betrieb.
Und die Jugendwürfel.
Wie die Flügel der Götter mit dem Wind des Falles verloren sind.
2.5.06
Já me despedi

Já me despedi, sem teres olhado para mim.
Já te disse adeus, sem me teres ouvido.
Já me exilei, sem te teres apercebido.
Já falei com o meu coração, para acalmá-lo.
Já tentei sossegá-lo.
Já lhe disse que ele deu o seu melhor, e nem sempre se ganha.
Já lhe disse que ele não podia fazer nada, senão aceitar o que não consegue mudar.
Já lhe disse que deixasse ao sabor do vento, da corrente, de qualquer outra coisa.
Já lhe disse que tudo acontece por uma razão, e é sempre para o nosso bem.
Já lhe disse que não se deve angustiar nem se fechar, ainda que assim lhe parecesse mais fácil.
Já lhe disse que ele é feito de ouro e que o ouro não se parte.
Já lhe disse para não se precipitar, para não se adiantar. Nem se deixar atrasar.
Já lhe disse para não se deixar entusiasmar, não se voltar a dar, mas isso também é errado.
Já lhe disse para continuar a amar, mesmo que volte a sofrer. Porque ele não sabe viver de outra maneira.
Já achei que estava certa no que lhe disse.
Já achei que era errado dizer-lhe aquilo.
Já lhe disse principalmente para não chorar.
Já lhe disse que o mundo é todo feito de amor, e que a ele caberá também uma parte.
Já lhe disse que tenho a certeza, daqui a um tempo ele vai ser correspondido.
Já lhe disse para esperar.
Já lhe disse tanta coisa, e não o consigo convencer.
Ele gosta de ti. Pouco mais posso fazer.
Finalmente
Não gosto de adeus em comboios que partem.Não gosto de cartas para serem lidas só depois da outra pessoa apanhar o avião para um lado qualquer.
Não gosto dos finais dos livros quando a estória se esgota nas últimas páginas.
Não gosto dos créditos finais dos filmes.
Não gosto das últimas palavras ao telefone.
Não gosto da palavra fim escrita em parte alguma.
Não gosto de fins.
Finalmente, gosto de pensar que todos os fins são reinícios.
28.4.06
Para aprimorar
Convalescer. Curar. Limar. Esmerar. Apurar. Polir. Melhorar. Crescer. Todos os dias são inícios.24.4.06
20.4.06
Dormente
Anjo ou deus,Que me percorre a alma acariciando o corpo.
A ti só pedirei que me concedas o que nunca te vou exigir.
Porque tu és vadio...
Nem quieta nem inquieta espero pelo que o fado me trouxer
mas se me ergueres, erguerás ouro
porque sinto prazer, sinto dor
e porque para ti me dou como se nunca tivesse sofrido.
Mas tal como é, gozemos o momento.
Aguardando o amor como alguém que o conhece
E lhe reconhece os defeitos, os feitios.
E de longe vejo o cimo da montanha branca
e o sol que suave beija o gelo fazendo-o chorar de ventura.
Eu quero chorar com os teus beijos, Sol.
Quero que me descongeles, porque há muito tempo que sou geada.
Quero que me beijes os lábios solitários
Quero que me ocupes o corpo descampado
nas noites que caem doces sobre nós.
E quando o mar engolir a areia e arrastar com ele todos os castelos
Eu quero que o nosso subsista.
Porque tu és vício...
Dormente, a dormir sorrio.
Porque me pesas no corpo e me beijas a alma.
Gato vadio.
12.4.06
Devolve-me a alma
Sangue insano.Entraste no meu corpo excessivamente
E seguindo a minha vontade invadiste a minha casa
Arrancaste-me do chão rompendo-me a camisa.
E não tenho quem me cosa.
Traz a minha alma quando voltares.
Devolve-me a camisa rasgada.
Resgata-me do barco no meio do rio.
Eu que fui monotonamente abandonada ao meio-dia.
Que o meu corpo se transforme numa vela
E o vento do meu sofrimento me sopre para longe daqui.
Levarei na aragem o teu perfume, flagrante de mim.
E ficará nas águas o teu rasto distanciando-te de mim.
Sangue insano.
Deixa-me convencer os teus lábios de que dos meus recebes vida.
Desejei um mundo que só posso ver contigo.
Com os meus olhos nos teus, perdi-me de vista.
E não tenho quem me salve.
Resta-me apenas guardar e resguardar o nosso segredo
no escuro do frio,
Da noite antiga que se seguiu.
11.4.06
Capitulo 3 Cabinda, Angola
Passei a primeira noite sem conseguir dormir. Cabinda exalava um som de fundo vindo da floresta do Maiombe e aos fins-de-semana o batuque nas senzalas inundava a cidade. As vozes pareciam atravessar o tempo, atrasando-se, adiantando-se a ele. Ao redor das fogueiras, as festas alimentavam os indígenas noites e noites inteiras. Na cidade, e sem conseguir conciliar o sono, levantei-me da cama pequena de madeira que me tinha sido oferecida com todo o carinho pela Família Amaro Pereira. O quarto era grande, e amplo, contrastando com a cama. Abri a janela e a minha boca abriu-se ao ver os poços de petróleo distribuídos pelo alto mar, qual archotes espalhados. A imagem do petróleo extraído na teia de plataformas junto à costa ainda é totalmente clara para mim. Podia ver pequenas fogueiras ao longe, em cima do mar, como que decorando e iluminando essa massa de água no escuro.Acordei em Cabinda. Entre o mato e o mar. Tinha 17 anos e cabelos compridos. Andava descalça pela cidade, ou com apenas umas sandálias que tinha trazido comigo do Lobito. No Lobito apanhava os machimbombos, os autocarros comuns, quando ia para a escola ou para a praia, mas frequentemente preferia os bulamas, autocarros mais usados entre os indígenas porque se podia andar descalço. Assim que saía de casa para ir para a escola, tirava as sandálias e colocava-as ao pescoço. Nascida em Nova Lisboa, no ano de 1953, eu tinha tudo para ser confundida com os nativos de Angola. A única coisa que me distinguia era a cor da minha pele. Apesar de queimada pelo sol.
A cidade de Cabinda recebeu-me de braços abertos com os seus caminhos largos, passeios limpos e brancos, com as suas casas semeadas como calhava por entre a verdura, as árvores que ofereciam sombra, com os cheiros que emanavam da floresta e que me diziam que estava em casa, e com as praias e mar que me deliciavam. Nas ruas, as indígenas vestiam-se com os panos coloridos de Cabinda e do Congo. Eu vestia-me com bermudas e camisas atadas à cintura. Soltava ou prendia o cabelo com um lápis. E caminhava ao ritmo das músicas cantadas nas senzalas que tinha ouvido na noite anterior.
10.4.06
Do outro lado
Perturba-me ver-te imóvel e gélidoQuando o teu corpo sem vida se junta ao meu.
Perturba-me ouvir a tua voz que me impregna de frio
Quando a que penso ouvir é apenas um eco da minha.
Sem olhares para trás arrastas a minha sombra pelas águas
E carregas o meu corpo pelos campos
Até que me deixas abandonado em qualquer lugar
Onde me encolho e refugio no amor que por mim nunca sentiste.
Atravessa-me sem que eu te possa ver
Para que nem eu saiba do que morri.
7.4.06
Felizes para sempre

Sou uma criança que pensa em fadas
Em pós mágicos
Em abóboras voadoras.
Sou uma criança que acredita em fadas
Em sapatinhos de cristal
Em príncipes encantados.
Sou uma criança que fala com fadas
Sonha com bailes e não sabe que a vida não é um conto qualquer.
5.4.06
O meu pensamento falha quando quero exprimir o que sinto

Absorvo o sangue do teu espírito.
As nossas mãos estão frias como se eu nos tivesse tirado a vida.
Mas o amor nunca morre. Só se esconde aqui no centro de mim.
Batalho como alguém que pensa conhecer a alma das coisas.
E como alguém que luta para recordar esse conhecimento.
Mas falta sempre o que não recordo.
Ganha-se a batalha e no chão soldados nossos mortos em morte paulatina.
Perco cem mil homens num só.
Exponho-me à carnificina por causa de ti.
És o meu homem abstracto.
Um ser inclinado que sorri do céu em queda livre.
4.4.06
31.3.06
Todos os dias, a caminho do meu trabalho

Se eu soubesse desenhar faria a caricatura de um trolha. Ele teria uma barriga grande com uma camisa desabotoada em cima e em baixo. Ver-se-iam os pelos que se revelariam escuros e grossos, e na barriga desenhariam um fio que à medida que descia engrossava, até que felizmente se escondia nas calças Jeans sujas de tinta branca e pó. Ele teria uns olhos raiados de sangue, esbugalhados, uma boca enorme, cheia de dentes grandes e separados, um palito num dos cantos da boca e uma língua castanha e caída de lado. Permanentemente diria frases bonitas e elegantes como: Se fosses um pão barrava-te com marmelada. Ou: Ai, coisa rica do pai. Ou ainda: Contigo casava-me todo. Sim, porque podia casar-se só em parte.
De repente saltou-me uma dúvida. Para exercer a profissão de trolha, será um dos pré-requisitos o ser-se rebarbado-tarado-inconveniente?
Papelada:
Pergunta: Sr. Manuel, tem a primeira classe completa?
a) Sim, tenho.
b) Não, não tenho.
c) Talvez tenha, talvez não tenha. Mas sou violento e falo alto.
Pergunta: E Sr. Manuel, quando passa por si um rabo-de-saia, o que faz?
a) Não olho, estou perdido nos seus pensamentos.
b) Olho por uns segundos e desvio o olhar.
c) Olha, babo-me e grito desvairadamente: Comia-te toda.
Se seleccionou as alíneas C em ambas (nas duas) perguntas, deixe o seu número de presidiário, o nome do estabelecimento prisional onde reside, e nós entraremos em contacto consigo.
Ou será que desenvolvem esta brilhante faceta depois de iniciarem o trabalho. Será contagioso? Onde terá sido iniciado esse conhecido ritual?
Sem desfazer a profissão, que é digna, apenas manchada pelas bocas incessantes, repetitivas e de mau gosto que eu e todas as mulheres ouvem todos os dias, acompanhadas de olhares perniciosos e tentativas de tocarem no meu cabelo.
As raparigas que nunca receberam uma boca-suja deste tipo, se quiserem muito, tentem ir comer um gelado de chocolate sem colher perto de uma obra. Não falha.
Acho que vou fazer um estudo sociológico sobre isto e depois defender a tese. Já volto.
27.3.06
Hoje acordei com saudades de Salvador


E por isso, convenientemente e a pedido de mais de metade das famílias de Portugal, vou falar um pouco de mim e da cidade que me viu chorar pela primeira vez, quando nasci. Dei cabo dos ouvidos dos médicos no dia 22 de Novembro do belíssimo ano de 1981, na Maternidade de Iperba, no distrito de Brotas e vivi dois anos na Pituba, que é um bairro residencial que garante grande independência porque tem tudo, inclusive o maior centro comercial de Salvador, o Iguatemi. Salvador é a capital do Estado da Bahia. É a terceira cidade mais populosa do Brasil, depois de São Paulo e do Rio de Janeiro, e é o quinto centro urbano do pais. Entre os pontos turísticos mais conhecidos, estes são os que aconselho a gritar que visitem: o Mercado Modelo, o Elevador Lacerda, o Pelourinho, a Igreja do Senhor do Bonfim, o Farol da Barra, o Parque das Dunas onde podemos tomar banho na Lagoa do Abaeté, a Ponta de Humaitá, o Farol de Itapua, o Alto da Ondina, a Marinha da Penha, o sorvete da Ribeira, e todos os outros lugares como Vilas do Atlântico, um bairro de Lauro de Freitas, perto de Salvador, encostado à mais linda praia do litoral norte de Salvador, a Praia de Vilas.
E quem é que não liga Carnaval a Salvador? Além da tradicional festa na rua, é comum o uso de trios eléctricos, gigantescos carros de com que varrem as ruas da cidade durante vários dias com os mais conhecidos artistas brasileiros como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ivete Sangalo, Daniela Mercuri, Chiclete com Banana, Olodum e muitos mais. A música que surgiu destas festas chama-se Axé e é campeão de popularidade no Brasil. A palavra Axé está ligada a energia, poder, força da natureza e poder de realização através de forças sobrenaturais. Por isso tenham muito cuidado comigo, porque eu sou de Salvador. A música Axé foi criada nos anos 80, muitos críticos de música apontam para o ano de 81 e alguns fazem mesmo a ligação entre o meu nascimento e o nascimento do Axé. Deste movimento musical surgiram vários ritmos e entre os mais conhecidos está o Samba Reggae que vem dos grupos afro-brasileiros Olodum, Muzenza e Araketu. Tem origem no candomblé, uma religião também afro-brasileira mas sobre a influência do Frevo, o Rock, do Reggae e de ritmos latinos como a Salsa, o Merengue e o Bolero. Os rituais e as festas do Candomblé são parte integrante da cultura e uma parte do folclore brasileiro. O Carnaval da Bahia é o maior do mundo e Salvador é cantada em prova e em verso por muitos cantores brasileiros e estrangeiros. Porque será? Como diz o Caetano, numa música, atrás do trio eléctrico só não vai quem já morreu.
23.3.06
Um vendaval para a mesa dois

Vento
Que respiras no vazio do penhasco
Queria que me arrancasses daqui
Que me ceifasses daqui
Que me desenraizasses de mim.
Vento
Que expeles no retiro do penhasco
Queria que me levasses daqui
Que me desapegasses daqui
Que me protegesses de mim.
Vento
Queria que entrasses no meu pensamento
E sumisses as palavras daqui
Queria que me arrebatasses, enfim.
Traz-me uma coca-cola.
Terás alma?

És uma árvore verde e tens ramos e folhas
Mas estás aí parada.
E por muito que vejas o céu e mo digas,
Digo-te que não vês o mundo, porque não amas.
20.3.06
Ouves-me?
Move-teFaz alguma coisa
Como a água da chuva que ansiosa se precipita
As minhas palavras correm e juntam-se ao rio
E passam por ti sem te regarem
Mas como posso eu pedir que tenhas consciência
Quando não passas de uma bela estátua grega e fria?
Pensar-te é o meu defeito
Move-te
Faz alguma coisa
Imobilidade mórbida de um desmembramento insano
Receber-te em mim é a minha sede
Fixo o olhar em ti e resolvo deixar de respirar
Para me concentrar em ti
Mesmo morta
Olhar-te é o meu vício
Move-te
Faz alguma coisa
No canto do nosso quarto erguem-se pirâmides
A terra rasga-se e elas crescem intrometidas
Desvio-me delas pontiagudas para tentar manter-te sob a minha égide
Neste espaço labiríntico que nos divide
Por entre os prantos os risos e os vícios do Egipto
Move-te
Faz alguma coisa
A mágoa chora na noite triste quando me lembram de ti
Esconjuro-te estátua, porque não ardes
E ao mesmo tempo não te ausentas de mim.
Erva daninha.
Que cresces quando já te pensava esquecida.
15.3.06
14.3.06
Umas vezes tocas-me. Outras vezes não

O teu amor por mim senta-se num baloiço.
Parece que sim. Parece que não.
Atiras-me areia para os olhos.
Parece que sim. Parece que não.
Oiço o ranger do baloiço.
Parece que sim. Parece que não.
A tua mão estende-se para mim.
Parece que sim. Parece que não.
Oiço o som da tua voz.
Parece que sim. Parece que não.
Tropeço em ti. Caio em mim.
E se nos cansarmos do mesmo lugar?
Põe a tua mão no meu cabelo e brinca com ele. Não desejo mais nada.Mas vai alterando os movimentos, senão começas a fazer parte de mim e deixo de te sentir. Passas a ser eu, e eu não me amo.
Sombra amarela

Não tenho medo de ti, sombra. És minha.
Apesar de por vezes te adiantares a mim, sou eu que te comando.
13.3.06
Es feito de chuva
Sinto chuva dentro de mim.Fria.
Cada dia espero o que mais ninguém me poderá dar
Cada dia me canso da esperança
que regressa no dia seguinte.
No prometido incumpriu-se o fado.
E a dor que me despovoa é quem me acompanha neste vazio.
O nosso amor entardeceu.
Cansei-me, desesperadamente gastei-me a esperar-te.
Como um fósforo que queimou e se apagou.
Mas tu
De gestos inocentes em sono vais seguindo
E em sono eu vou te perseguindo.
Sinto chuva inundar-me de ti.
Quente.
E o tempo passa também por ti
Porque não és um herói de banda desenhada. Pelo menos não daqueles com capa.9.3.06
Gosto tanto de ti que não sei como te desejar
Porque tudo o resto não existeEmbala a tua mão no meu corpo
Deixa-a adormecer em mim.
E se te cansas em mim
Também eu descanso em ti
Sossegadamente a vida passa.
Sou escrava de ti, Amor
E por isso me sinto livre.
8.3.06
Mentiras
Mentira. Falsidade. Embuste. Engano. Logro. Fraude. Ardil. Manha. Armadilha. Cilada. Impostura.Palavras negativas.
Eu já menti. Quem nunca mentiu que atire a primeira pedra.
Eu já menti. Agora vivo na estúpida sinceridade. Uma estupidez que me faz bem mais feliz. Mais tranquila. A mim, e aos outros. Nem que seja a longo prazo. Verdades amargas doem. Mas nunca nos adocicam erroneamente. Nunca nos sentimos enganados por um doce. Mentir é roubar o direito do outro à verdade.
Agora, dar um doce e roubá-lo depois, isso é crime. É um duplo logro. Tentem roubar um doce a um bebé e vejam ao que isso leva. A reacção do bebé vai ser roubar o doce ao bebé do lado. E é assim que nascem os ladrões.
21.2.06
Brilhas
Lá bem no canto do teu olho vejo uma gota que cai docemente.Desprezo a tua pupila e acompanho a tua dor que me prende o olhar.
Sobre a minha cara a tua água fez-se torrente.
Em pequenas lâminas sinto o meu corpo alagar-se em riscos.
Os mesmos que desciam dos teus olhos há segundos atrás.
É no escuro que mais te vejo a brilhar.
É no encoberto que os teus contornos mais se anunciam.
E o brilho canalizado pelos faróis do teu rosto parte de ti iluminando todos.
Dizes-me calada que posso ficar.
E no teu porto dá-se o nascimento do meu brilho.
Nas margens do teu rio a minha dor afoga-se.
E toda a dor do mundo se apaga no brilho de duas espadas que unidas se perdoam.
17.2.06
Engravidei
Desde pequena que me assustavam dizendo que as maiores dores físicas que uma mulher podia ter, eram as dores de parto.Resolvi o problema: Sonhei que tinha dado à luz moscas. Eram cinco mosquinhas lindas. Como eram recém-nascidas ainda não tinham asas, naturalmente não conseguiam voar. Eram muito activas e dado que saíram de mim, presumi que saíssem à mãe. Mas os meus irmãos mais velhos não lidaram muito bem com o facto de serem tios de moscas. A primeira palavra dos sobrinhos também os preocupada. Zzzz, o que significaria? Como iriam comunicar com as mosquinhas? Mas valia matá-las, pensaram. Tentavam desenfreadamente pisá-las. E eu, passei o resto do sonho a guardá-las com as mãos e a tentar que elas não se afastassem umas das outras. Ia dando leves toques de um lado e de outro, tentanto direccioná-las sem as esmagar. Afinal, eram minhas filhas e o amor de uma mãe, ainda que de moscas, é incondicional.
16.2.06
Grande Fernando Pessoa

Hoje soube de mais uma pessoa que se entretém a falar mal dos outros.
Fernando Pessoa dizia que nós não somos do tamanho da nossa altura, mas do que vemos. E eu acrescento, do que fazemos.
E essas pessoas que o que fazem é falar extenuadamente dos defeitos dos outros, ou mais, ampliá-los ou até mesmo inventá-los, transmitem-me pena. Tenho dó delas. E ré, e mi e todas as outras notas. Em vez de olharem para elas e verem o que deviam melhorar, olham para os outros e produzem estórias. Distorcem. Engendram estórias mirabolantes, espalhafatosas, ridículas, quando todo o ridículo mora nelas. Já pensaram em ir trabalhar para o talho? Sangue. Sangue. Muito sangue.
Já repararam nas conversas dos cafés? Ontem fui ao café aqui perto do meu trabalho e estavam a falar mal do director. Falam mal do director, do subordinado, do concorrente do fornecedor, do porteiro que hoje falava com uma vizinha, de um colega que demorou mais do que o normal a fumar. Estou farta. Sim. Estou farta. Vamos tentar acabar com este vício. É pior que o café. É pior que o tabaco. Vivam mais a vossa vida e menos a minha ou a dos outros. Limpem-se disso.
Pessoas pequenas que não sabem que são do tamanho do que fazem.
14.2.06
O Dia dos Namorados deve ser todos os dias

Agora, essa pressaozinha de levar a jantar, oferecer flores mesmo quando não se é indiano, e provar um vinho diferente no restaurante onde estão mais dois mil casais de mãos dadas suadas com rosas e rosas a descansar em cima de cada uma das mesas para duas pessoas, e apenas separados momentaneamente por uma vela invejosa em forma de coração cortada pela metade, ai. Ui.
Por outro lado quem viva essa experiência, que a viva. Eu quero é que todos sejam felizes. :) De forma kitsch ou não.
Acima de tudo, o amor. Seja de filme, de revista ou real. Seja imaginário, copiado ou inventado. Desde que essas pessoas pensem que o vivem, acabam por senti-lo.
Ai kitsch, kitsch... as coisas que tu nos fazes. Fazes-nos vir as lágrimas aos olhos, duas, uma a cair de cada olho comovido, e uma gota logo a seguir à outra, quando vemos dois casais num jardim debaixo de uma árvore cheia de raízes à superfície a darem um beijo ao pôr-do-sol. E ele, que tinha o ramo de flores escondido atrás das costas, num gesto de amor intempestivo revela o ramo de rosas à menina, que ainda segura uma das pernas no ar dobrada e levantada com o beijo do namorado e diz: Feliz dia dos Namorados.
E nós dizemos: que coisa bonita, um casal de namorados enamorados. E mais, comovemo-nos todos com a mesma imagem, e aí sim o Kitsch ganhou. As imagens-chave do nosso imaginário ganharam.
Como foi o vosso dia dos Namorados?
Nunca tive as tuas palavras

Olho para as letras que desenhaste num papel como se examinasse a anatomia do teu corpo.
Cinco letras que nunca cheguei a ouvir porque até esta preferiste não dizer.
Nunca tive as tuas palavras. Essas tuas palavras sussurradas ou gritadas. Nunca as ouvi.
O ar que passava por entre os teus dentes rectos e pela tua língua determinada e que me trariam documentos preciosos, nunca passou. Sentimentos teus em palavras que não deitas ao vento e por isso nunca foram espalhadas para mim.
Apenas te tive, deitada em mim. Calada.
Adeus. Adeus.
Agora leio a palavra que nunca quis ouvir de ti. Nem isso me deste de ti. E caminho nas ruas que passam por mim porque a tua palavra aprisiona os meus olhos a ti, enquanto me liberta, triste de mim.
Palavra, que nem em sonhos sonhei. Serei um pouco do nada. Um corpo que vagueia no desassossego arrastando os pés pela estrada com medo do teu ponto final. Com receio da tua caligrafia, vazia de nós. Um corpo desabitado que passeia com um papel preso entre as mãos assustadas e que me dificultam a tua leitura. Porque não te quero ler.
Tive-te antes de te ler que te perdi.
E nestas esquinas perco-me sem ti. Só com a tua palavra última.
Adeus. Adeus.
Palavra, que me sinto nu. De ti. E essa tua palavra soa-me a um pouco do nada.
Palavra, que me traz sentimentos vazios de amor. Vazios de mim.
Porque sem ti sou um pouco do nada.
Palavra, que me trouxeste repouso.
Deixaste-me sozinho com uma palavra, que eu queria invisível.
Que eu queria calada.
Sem leitura.
Pobre destinatário de mim, desertado por ti.
Adeus. Adeus.
Sou poeira ou apenas uma folha desolada no vento da madrugada.
E de ti, levo um pouco do nada.
8.2.06
Finalmente
Eu acabei de lamber o meu cotovelo direito.Andei 24 anos a tentar. Finalmente.
Só é um bocado chato agora ter o braço partido.
Pensar grande
Ainda que os meus passos sejam vistos pelos outros como inúteis, eu sei que vou deixando pegadas pelo caminho. Vou marcando as árvores à medida que passo por elas. Vou deixando também migalhas mas nem penso em voltar atrás. E não me assusta arriscar. Não tenho pânico de corredores compridos e escuros. Até porque depois de eu provar uma laranja tão doce, não me posso contentar com apenas metade. Vou espremê-la até ao fim. Se a última gota for amarga, será apenas um dissabor. Porque eu não tenho medo de saltar. De correr, apanhar balanço e saltar. Não posso transpor um abismo com passinhos de bebé.Capitulo 7 Cabinda, Angola
Ana entrou no Hotel Maiombe, que já tinha entrado na sua rotina. Faltavam agora apenas 2 horas para ir trabalhar. Em vez de se dirigir ao balcão, como sempre fazia para pedir uma Coca-Cola, sentou-se numa cadeira de madeira pouco equilibrada. Um pouco como que prevendo a sua vida, a cadeira ia se equilibrando. Um pouco para a direita. Depois um pouco para a esquerda. Lá ia mantendo o equilíbrio. Ele observava-a. Ajeitou a camisa, quando se sentou e desapertou dois dos botões da blusa fina, para deixar o pescoço respirar. Rasgou um pedacinho de um guardanapo que não tinha sido usado e dobrou-o duas vezes. Os olhos dele acompanharam as dobragens com atenção. Ela baixou-se para colocá-lo debaixo do pé da cadeira. A mesa estava cheia de pratos, copos, que ainda não tinham sido levantados e que lhe roubavam o espaço para colocar os cotovelos. Ela mexia nas pontas do cabelo e nos botões vermelhos, numa tentativa estéril de ocupar as mãos. Acendeu um cigarro. Do outro lado da sala, ele, sentado numa outra mesa que dividia com um outro militar.Mas recuemos um pouco. A primeira vez que o viu tinha sido uma semana atrás, quando ele, no mesmo café do mesmo hotel, lhe perguntou se estava a chover.
As pessoas falam sobre o tempo por tantos motivos. Serve para cortar o silêncio num elevador. Numa sala de estar enquanto se espera por não sei quem, que chegue de não sei de onde. Serve de assunto interessante a quem não tem assunto ou de paisagem num poema choroso em que a chuva e a trovoada encerram em si não sei quantas significações. Mas o tempo é normalmente abusado para servir de desculpa para um atraso. Afinal, a chuva altera sempre o nosso percurso. Pára-nos, enquanto esperamos que passe. Ou adianta-nos, quando corremos para a evitar. Seja como for, o nosso caminho é sempre diferente do que tínhamos calculado. E aí cada impedimento, e cada adiantamento desempenha o seu papel na nossa vida. Se a chuva naquela tarde não se tivesse precipitado, ela não teria entrado naquele momento no Hotel Maiombe, encharcada.
Tantas abordagens imagináveis e ele perguntou-lhe se estava a chover. Nesse dia, a caminho do trabalho, o céu choveu sem pedir permissão. As pessoas aguardavam encostadas às casas, nas ombreiras de portas, à espera que passasse. Uns corriam nos passeios, ou nas estradas. Outros mantinham o passo. Duas velhinhas acompanhavam-se no passeio batendo constantemente uma na outra com os enormes guarda-sóis com estampados floridos que faziam o que podiam para as proteger da chuva. Ainda chovia quando a Ana entrou no café do Hotel para se esconder da chuva. O cabelo que descia até à cintura estava ensopado e ela, com as duas mãos e inclinando a cabeça para cima do ombro direito, torcia-o, apertava-o, expulsando dele a água da chuva. A camisa branca alagada tornara-se transparente e revelava o biquíni que trazia sempre vestido. Dois triângulos azuis.
Espremia o cabelo quando foi interrompida. «Desculpe, mas podia dizer-me se está a chover?». Não sendo certamente estúpido, estaria a intrometer-se. Trazia um camuflado velho e sujo, mas parecia apresentar-se a ela de fraque. Distinto, pensou. Ana olhou para ele. O cabelo escuro e desarranjado revelava-se por debaixo do quico. Calçava umas botas quase estragadas, enlameadas, provavelmente as únicas que usava. Era Alferes. Seria amigo do Vítor? O persistente Vítor continuava a tentar circundar a Ana, sem sucesso. Lia-lhe apaixonadamente poemas seus e dedicados a ela, debaixo da mulemba centenária que cobria totalmente o monumento do tratado de Simulambuco, através do qual as autoridades de Cabinda e do Maiombe se colocavam sob a protecção de Portugal contra os corsários ingleses. Uma árvore linda, e que se assemelhava a um guarda-sol gigante. Ana sentiu-se atravessada pelos olhos rasgados e escuros do militar que queria saber se estava a chover. Ela percorreu-o discreta e rapidamente de cima abaixo. E de baixo a cima. Podia ter-lhe dito mil e duas coisas, menos falar-lhe do tempo. Num segundo pensamento, talvez mais profundo perguntar se estava a chover quando ela chega encharcada da rua, não deixa de revelar um curioso sentido de humor inteligente. Roça o ridículo. Mas roça a arte. Se o propósito do militar era estrear uma conversa com uma civil, por que não fazê-lo do modo mais claro e directo? Se o móbil era a troca de palavras, e apenas a troca de palavras, porque não manifestá-lo de forma aberta? E simplesmente? Espantoso como a linha que divide o ridículo do brilhante pode ser tão débil. Como uma folha de uma árvore que empurrada pelo vento da copa ao chão pode cair simplesmente na relva, verde, ou um pouco mais à direita numa poça de água, suja. Pode ser refulgente ou grotesca. Tão delicada é essa separação. Se está a chover? «O que é que lhe parece?». Ele sorriu porque mesmo sem a conhecer, não esperava outra resposta. Ela passou por ele, sacudindo com as duas palmas das mãos a blusa e as bermudas, foi até ao balcão e pediu uma Coca-Cola.
Mas voltemos àquele dia 22 de Novembro. Faltavam então 2 horas para ir trabalhar. Sentada na tal cadeira de madeira, que mesmo com o papel dobrado duas vezes não se equilibrava, acendeu um cigarro. Do outro lado da sala, ele, com quem tinha trocado duas frases encharcadas, uma semana antes.
Estava sentada pouco confortavelmente. O cigarro, preso entre os dois dedos da mão direita, e com a mão esquerda entretinha-se com o ondulado do cabelo. A primeira vez que levou um cigarro à boca tinha 12 anos. Trancou-se na casa de banho de casa, no Lobito, e insistiu em perceber o motivo dos adultos gostavam tanto daquilo. Tinha de ser muito bom. Antes da refeição. Depois da refeição. A meio da refeição. E «nada como um cigarro durante o café»? E como uma chantagem? Será que se podia obrigar alguém a casar com outra pessoa com a promessa de um cigarro? «Casa comigo», «Só se me deres um cigarro». Lembro-me de ser pequena, de ter uns 9 ou 10 anos, e de ver a minha mãe na sala, sozinha no escuro da sala, quando me levantava a meio da noite e ia à cozinha beber um copo de água. Em Nova Lisboa não via da janela os mangais, nem o mar. Da sala, via-se a rua, com as suas elegantes casas de bonecas, os jardins arranjados e os muros baixinhos. Lembro-me da sala escura estar apenas iluminada pelo cigarro aceso. A andar de um lado para o outro. Em círculos constantes e previsíveis. Como uma mosca que não sabe porque é que está ali. De onde vem ou tampouco para onde vai. Naquela época a minha mãe tinha acabado de se divorciar do meu pai. Eu acordava com o calor ou com pesadelos e andava com passos apressados pelo corredor comprido e escuro até passar pelo quarto dela. A cama vazia. Seguia para a sala com a certeza de que a encontraria lá. Como a mosca. E na madrugada juntava-me a ela, sem me fazer notar. Sentava-me silenciosamente com os meus braços a envolverem as minhas pernas e os pés muito juntos. Como se me sentisse segura assim. Os meus pés não iriam a nenhum lado sem mim. Os dois pés. Comigo. E se um abria a escorregar, puxava-o de uma só vez para mim. Não consegui apertar o meu pai. E ele escapou-se de mim. Sentava-me a observá-la de um lado para o outro. Não a culpo pelo meu vício. E adormecia no sofá enquanto acompanhava com os olhos a dança luminosa que me hipnotizava.
6.2.06
Quando eu morrer
Normalmente chegava poucos minutos antes das aulas e os meus passos pequenos e apressados percebiam-se pelo barulho que faziam nos degraus de pedra. Subi e desci aqueles dezoito ou dezanove degraus tantas vezes. Quando subimos assim tantos degraus e tão frequentemente, temos tempo para pensar em tudo. Uma vez pensei num cemitério. Pedras brancas e frias em cima da terra onde os nossos corpos e as nossas células perdem a memória e caem, deitadas, no eterno esquecimento. Não gosto que me brindem com flores. Oferecer flores, para quê? Lembram-me a morte. Recebemos a flor, para depois colocá-la no seu túmulo. Enchemos o jarro com água, como se quiséssemos prolongar o sofrimento da flor. Com um sorriso ingénuo espetamo-la no jarro onde ela irá em pouco tempo definhar. Prefiro contemplá-las num jardim fresco e florido, qual paraíso. Descia as escadas e pensava frequentemente que quando morresse não queria ser deitada num cemitério. Não queria flores. Não quero choros.O post anterior já tem mais de 50 comentários
E eu, tenho vindo a ser alvo dos piores nomes por ter estado em repouso estes últimos dias.Já me chamaram Cátia Vanessa e Odília.
(Espaço para o leitor pensar nesta piadinha infame).
(Espaço para o leitor ser complacente com a autora do post).
Quando forem à praça comprar um bacalhau, que é seco e salgado, é necessário que depois o hidratem e o dessalguem.
(Voz de anúncio) Sabiam que o bacalhau pode ganhar até vinte por cento de peso se for correctamente dessalgado? Vejam como é simples dessalgar e aproveitar o melhor do peixe, fazendo-o render para que fique com um sabor excepcional:
Depois de cortar o bacalhau em posts, coloque-o submerso dentro de um vasilhame sob um fio de água por uns 10 minutos.
Eu inundei a cozinha porque me esqueci da torneira aberta a correr largamente.
Sim, chatearam-me por nunca mais ter escrito no blog.
Sim, acusaram-me de fazer render o peixe.
29.1.06
Neve em Lisboa
O meu telemóvel encheu-se de mensagens: Neve em Lisboa, vai à janela. Está a nevar, está a nevar. Neve em Lisboa. Lindo. Lindo. Tenho um programa óptimo para hoje. Queres vir construir um boneco de neve comigo? Está a nevar Sofia...A neve caiu em Lisboa.
Eu peguei no carro e fui até à casa da minha avó para ver, com ela, a neve cair. Disse-lhe: Desde que vi nevar pela primeira vez, que to quis mostrar. Como nunca quiseste vir comigo a um país que nevasse, trouxe a neve até ti. – Ela sorriu. Voltei para casa, e no caminho, todas as pessoas que passavam por mim, pela primeira vez, corresponderam-me com o sorriso que geralmente distribuo. Hoje, em Lisboa, a neve não foi só um fenómeno que consiste na queda de flocos de neve. E cada floco de neve não foi só uma precipitação de uma forma cristalina de água congelada. Foi um motivo de união. De partilha entre desconhecidos. De pessoas aparentemente indiferentes a tudo. A neve hoje aqueceu-nos. Branca. Pura. Limpou-nos. A neve hoje para mim foi isto. E parece que foi para quem mora no meu prédio. E para quem não mora no meu prédio. A neve circunscreveu-se na própria simbologia do branco, que sendo o somatório de todas as cores, traz em si todas as possibilidades de cor. Trouxe todas as possibilidades de bondade e de bons sentimentos nas pessoas.
A neve caiu em Lisboa. E levantou o sentimento de compaixão pelos que vivem nas ruas. Quando entrei no meu prédio, vinda da casa da minha avó, um senhor de barbas compridas e sujas, abriu-me a porta. Agradeci-lhe e subi. O meu pai abriu-me a porta. Não tinha barbas compridas nem sujas. Fui até à cozinha e aqueci a sopa de cozido à portuguesa. Peguei num casaco que ninguém usa e desci. E o senhor de barbas compridas deixou escapar de si uma gota de água, e disse-me: Ainda há pouco passou por mim um senhor, também deste prédio, que me deu este gorro, estas luvas, e este casaco.
A sopa aqueceu-me tanto a mim, quanto a ele. E a neve, hoje, foi branca.
28.1.06
Lembras-te amigo?
Queriam ir ver o concerto sem pagar. Correram para a porta dos artistas para tentar entrar. Em vão. Desmotivados desistiram e desceram as escadas. Viram um toxicodependente a empobrecer-se, com uma seringa espetada no pé esquerdo. A noite não podia piorar. Chegaram ao carro, viram ao longe a bela da multinha de estacionamento. Procuraram a chave do carro, não a encontraram. Percorreram todos os caminhos, até procuraram bem perto do toxicodependente – que nem se apercebeu – e foram encontrar a artista bem perto da porta. Voltaram ao local do crime para se darem como culpados aos polícias maus, e seguiram para o cinema numa tentativa de relaxar e porque noite não podia piorar. Sem medos, entraram num filme que parecia bom. Não foi...O rapaz que não tinha nome
Era o gordo da escola, depois foi o gordo do Karate, o gordo dos Karts e o gordo do trabalho. Um dia o gordo encheu. Fartou-se e entrou para o ginásio. Deixou de beber coca-cola, cortou relacoes com as amigas batatas fritas que tantas vezes lhe enxugaram as lágrimas. Perdeu toda a alegria juntamente com uns muitos kg. E como nunca fora feio, ficou todo giro, como as meninas costumam dizer. Deixou de ser gordo, mas nunca teve um nome. Passou a ser o Giro-que-antes-era-gordo da escola, depois o Giro-que-antes-era-gordo do Karate, dos Karts, do trabalho e agora é também o Giro-que-antes-era-gordo do ginásio.30 de Janeiro de 1971
A rebeldia dos 17 anos e a vontade estúpida de sair de casa, fizeram com que ela apanhasse o primeiro autocarro e saísse da cidade. Trocava de roupa duas vezes por dia e de namorado de semana a semana. Namoros de mãos dadas, que acabavam mal elas ficavam suadas. Um dia um rapaz passou pela Ana sem sequer notá-la, e ela equacionou se ele seria cego ou gay. Mas não, esse rapaz que nao era cego nem gay casou com ela, e hoje já os dois com a vista cansada, contam 35 anos de vida partilhada.Voltar
Eram 3.43 quando o Miguel olhou para o relógio, depois de ver a Susana morrer. Uma gravidez ectópica, disseram os médicos. Viu a vida a andar para trás. Há duas semanas tinham ido a Londres, em lua-de-mel. Muitas vezes se perguntou, ao longo dos seus 26 anos, o que teria feito para merecer uma vida tao boa. Quis ser fotógrafo aos 18, e o foi por meses, por anos. Teve a oportunidade de fotografar a cidade de Hamburgo, na Alemanha, e juntamente com a Susana, que era jornalista, fizeram uma reportagem sobre o bombardeamento da cidade pelos Aliados no verao de 1943. Foi assim que se conheceram. Aos 16 anos, quis ser actor. Sempre quis ser muitas coisas, o Miguel. Participou em alguns espectáculos e chegou a dar autógrafos. Aquele papelinho, aquele beijo para a Maria, que sempre esteve no seu imaginário. Tirou o curso de Comunicacao Social porque pensou ser um curso que lhe podia abrir muitas portas, e como nunca soube ao certo que porta queria, nao teve grandes problemas em escolher o futuro – como se pudesse faze-lo. O que ele queria mesmo era casar e ter filhos. Mais nada, e isso era tudo. Dois anos se passaram, depois da morte da Susana.A vida dele pode ser dividida em a.S. e d.S. – antes e depois da morte da Susana. Antes, distribuía sorrisos, extasiava todos. Brilhava. De um humor fino, arrancava facilmente gargalhadas aos amigos, mesmo dos mais sisudos ou dos que tinham dores de dentes. Nao ligava muito ou mesmo quase nada à aparencia, às roupas que vestia ou aos sapatos que calcava, mas estava sempre impecável. Sem ser mesquinho, ligava a todos os pormenores. Sem ser saudosista, dava valor ao passado. E sem ser lamechas, sabia ser romantico. Nao precisava de perder nada, para saber o valor de tudo. A morte da Susana foi desnecessária. Como muitas. Sabia o quanto ela significava para ele – ela era apenas a vida dele. Era tudo. E por isso, tudo se resume à sua morte. Dos 18 aos 26 anos, o Miguel viveu feliz. Talvez tenha sido tao feliz nesses anos que tenha esgotado a felicidade. Talvez tenha sido tao amado nesses tempos que tenha perdido o direito de continuar a ser amado. Agora, introspectivo, cinzento, amargo e enclausurado, tentava levar a vida de uma forma básica, sem emoções. Como um quadro todo azul, ou todo verde. Pintado só de uma cor. Pintado com frases dela. Colorido com imagens que apareciam sem ele querer. Dela.
No outro dia o Miguel saiu de casa, encolhido como sempre. Transparente. Foi de carro pela marginal seguindo a estrada que vai ter ao Guincho – o spot preferido da Susana. Passou por muitos carros e carrinhas estacionadas com pranchas, umas a revelarem-se nas janelas, outras carregadas por raparigas morenas com t-shirts amarelas. Como aquela que ela tinha vestida quando se deram um ao outro, sem pensar. As ondas tinham um ar determinado, como quando se sabe de onde se vem, e para onde se quer ir. Quebravam sem arrependimento. Quebravam porque assim tinha de ser. Saiu do carro, enterrou os pés na areia e olhou para o mar. O mar entristeceu. Nada lhe dizia mais. Enchia e esvaziava sem ela. As marés tinham perdido o sentido, como ele. Sem o teu amor, Susana.
O vento ficou calado. E o Miguel estremeceu. Sem a ver, via o seu nome escrito na areia, mal desenhado mas sentido. Redesenhava-a sempre que ela se apagava, quando as ondas invejosas encharcavam a areia e engoliam o nome dela. O teu nome desapareceu, Susana. E o Miguel tornou a escrever-te, porque nao te queria deixar ir.
Na estrada os pensamentos voltaram. Sentia-se perfeito com ela. Passavam horas deitados a olhar um para o outro, e a sentir. Agora sentia a sua ausência. E a noite chegava, sempre. Asfixiando-o. Como daquela vez que ela lhe deu a mão e se aproximou dele. Como daquela vez que ainda sem a conhecer sonhou com ela. Como daquela vez que se viram sem sequer se falarem durante quinze minutos e se passou um ano sem se voltarem a ver. Como daquela vez que ele a foi buscar ao aeroporto. Como daquela vez que partilharam a cama sem se tocarem. Como daquela vez, que ele queria que voltasse a ser. E a vida dele era assim, desde que ela morreu. Vazia. Descolorada. Acordava, porque nao se queria matar e porque o sol nascia invariavelmente todos os dias. Trabalhava, apenas porque precisava de comer – de vez em quando. Antes tinha tudo e tinha medo de perder tudo. Agora nao tinha nada. Nem sorrisos. Nem gracejos. Nem receios. Nem desejos. A vida do Miguel, se numa lápide se tratasse, teria começado no ano em que nasceu, obviamente, mas teria tido um ponto final há dois anos atrás. Quando ela morreu, e ele morreu com ela.
Agora, dois anos depois e uns poucos meses, decidiu tentar viver. Ou voltar a viver. E pela primeira vez, depois de tanto tempo, voltou a entrar no escritório da casa deles, onde trabalhava com ela nas reportagens e onde tantas vezes lhe mostrou por A mais B que a amava. E que amava o corpo dela, também. E que amava aquela cicatriz que ela tinha no joelho, ou aquele sinal que lhe pontuava o rosto, e que a tornava singular. O Miguel abriu a porta do escritório. Finalmente. Devagar. Silenciosamente. O tempo parou e por momentos viu-a outra vez no chão, com o cabelo apanhado, seguro apenas por um lápis de cor. Azul. Sentada no chao, a arrumar papéis, a escrever noutros, com uma caneta na mão e outro lápis na boca. Os lábios torneados e de um escuro vermelho que lhe abria portas a outros pensamentos. Com duas secretárias disponíveis e ela no chão. Apaixonou-se por ela, por isto. Por isto e por tanto mais.
A vida com ela era simples e clara, como o Amor deve ser. Entrei e olhei para o relógio da parede, que contabilizava os minutos de forma rigorosa e monótona. Faltavam poucos minutos para as 4 da manha. Sentei-me também no chão e abri umas quantas cartas. Apaguei os destinatários e dei-lhes vida. Sem destino, sem passado, com um futuro por escrever. Libertei as cartas. Libertei-me. Li apenas o amor e as linhas belas escritas no tempo em que escrevia e ainda recebia cartas de amor. Dela. Para ela. Para ti, Susana. Deixei que cada memória fugisse do papel, se libertasse, enfim. Quero voltar a amar. Quero voltar a tentar. ‘Um beijinho para ti, Susana’, morre em paz.
26.1.06
Cama
Quando dizemos: 'Deixa estar, não te preocupes. Eu vou fazer-lhe a cama', qual é a nossa verdadeira intenção? Ora, meus amigos leitores, cogitemos. Com a ajuda do dicionário, uma cama é um leito onde se dorme, um colchão, um lugar ou objecto sobre o qual as pessoas se podem deitar. Até aqui tudo bem. E para mim a palavra cama está aliada apenas a significados bons ou muito bons. Ou até mesmo perfeitos. Conforto. Descanso. Amor. No entanto, e usando outra expressão-maravilha, quando alguém faz a cama a alguém, faz-lhe a vida negra. Querem tramá-la. Há um propósito pernicioso. Danoso. Próprio de uma erva daninha. E por isso, não percebo. A sério que não entendo. Quando me fazem a cama, fazem-me um favor. Eu acho simpático. Um beijinho grande para ti, Maezinha.25.1.06
Um pedaço de ti

Tenho um pedaço de ti aqui. E aponto para dentro do meu peito, Amor.
Escrevo aqui nestas linhas nostálgicas o lugar no meu corpo onde mais te guardo em mim. Porque te guardo em todo o lado, em mim. Em mim, em mim.
Tenho um pedacinho de ti aqui. E aponto para o lado direito da minha testa, Amor.
Porque te guardo também em memórias. Ainda que partidas. Por metades.
Porque sem ti vejo as coisas assim e sinto só uma parte.
Uma parte dos teus cabelos na almofada que divides comigo sem te separares de mim. Ou um fragmento de um sentimento que deixo correr solto no campo confiando que corra para ti. Um segmento apenas das curvas do teu corpo e do suor que vejo escorrer em nós quando casamos as nossas metades. Um bocado de saliva tua dentro da minha boca. Uma metade do teu olhar quando olhas para mim a rir.
Uma parcela de desassossego meu.
Um trecho de um atrevimento teu.
Um estilhaço de uma paixão nossa.
Um excerto de uma intuição minha.
Um recorte de um pressentimento meu.
Um corte de um movimento teu.
Um retalho de mim sem ti.
Porque canto metade das melodias que me entoaste. E vou só até a meio do caminho. Lembro-me de metade das nossas conversas. De metade das flores dos lugares. De metade dos cheiros e das cores e dos sons de todas as metades dos lugares.
Recordo-me de metade da minha vida.
Relembro-me de metade de mim.
Porque só tenho um pedaço de ti.
E sou só um pedaço de mim.
23.1.06
Confundo-me em ti

Levo as mãos à garganta. À minha garganta. Expiro os males. Expiro os medos. Inspiro os nossos segredos. E levo as mãos à garganta. À tua garganta. Porque o teu prazer é o meu e o meu beijo, só teu.
19.1.06
O homem de muletas
Vemos um homem a andar com duas muletas. Toc, toc, toc (efeito sonoro das muletas no chão). Tem o pé direito, com ligaguras. Está a andar na rua, toc, toc, toc, a desviar-se das pessoas, com dificuldade por causa do pé partido. Chama-se Amigo Da Isabel. Atravessa uma rua, olha para a esquerda e está a vir na sua direcção um carro que não parece querer parar a tempo. Num gesto ninja, atira as muletas para trás dos ombros, e corre até ao passeio. O carro passa. Volta a usar as muletas. Toc, toc, toc.18.1.06
Coooorrra
Asneiras. Palavrões. Obscenidades. Palavradas. Turpilóquios. Dizem que alivia a dor, dizê-los. Se é assim, experimentem martelar um dedo, ou entalar a mão nas grades de um elevador antigo. O que dizer? A vossa boca abrir-se-á para escoar a dor através de palavrões, aposto. Mesmo aqueles que excepcionalmente dizem asneiras, caem nesse erro. Pelo menos, se estiverem sozinhos. Até eu caio, se a dor for francamente forte. O que eu vos pergunto é o seguinte dois pontos. Terá a ver com a sonoridade dos palavrões? Um porra poderá num futuro mais educado ser substituído por corra? Aliviaria da mesma maneira dizer-se lerpa em vez de merda, quando pregamos um dos dedos à parede? E se dissermos foz do Arelho?Lei
Um fora da lei foge da... lei, num carro. O carro da... lei persegue-o ferozmente. Ultrapassagens coléricas. Guinadas sucessivas pela cidade. Entram na auto-estrada. O carro do cadastrado segue em frente e o da policia na sua peugada. A velocidade aumenta. Os nervos fervem. Ó meu Deus. Que velocidade. Ó que malucos. O velocímetro aparece na imagem. 160 km/h. Nisto, o carro da policia trava estupidamente. O senhor agente sai da viatura, saca o bloco das multinhas e passa a si próprio uma, por excesso de velocidade. Pede a si próprio os documentos e verifica se traz consigo o colete verde alface. Depois de cumprir o seu dever, volta a entrar no carro e arranca.A Belinha e o seu amor
Na parte de trás de um carocha. Osculam-se apaixonadamente. Mãos por todo o lado. De repente, ela fá-lo parar.- Espera. Aqui não. – diz a Belinha. Saem do carro aos beijos e aos tropeções e entram no prédio onde ela mora. Galgam as escadas e ele ataca a miúda com mais beijocas.
- Espera. Aqui não – verbaliza a donzela enrubescida.
- Mas eu quero tanto, mas tanto, dormir contigo Belinha.
- Eu também – desaferrolhando um risinho acanhado. Continuam a escalar as escadas aos beijos, entram no apartamento, dirigem-se colados ao quarto dela. Ele abre a cama, deitam-se, dá-lhe um beijinho na testa e aconchega-a.
- Dorme bem amor.
- Tu também querido.
E dormem.
Conheco uma clinica em Inglaterra
que faz implantes de monosobrancelhas. A mais valia das monosobrancelhas, como é de conhecimento geral, é grande. Holds back o suor da testa que teima em escorregar towards the eyes de uma maneira muito eficaz.Quem estiver interessado, deixe aqui um comentário.
Musica infantil
E o que foste lá fazer, giroflé, giroflá? O que foste lá fazer, giroflé, flé, flá?Fui lá fumar uma ganza, giroflé, giroflá. Fui lá fumar uma ganza, giroflé, flé, flá.
Musica infantil
Foi na loja do Mestre André, que eu comprei cocaína, tim tim tim cocaína tim tim tim cocaína.16.1.06
A eterna noite

A técnica de movimento é simples. Com o braço esticado para a frente leva-se a bengala para o lado da perna que está atrás. Dessa forma a bengala mostra sempre que a perna detrás pode ir para frente, que se pode dar o passo. Quando isso acontece, joga-se a bengala para o lado oposto, para o lado da perna que ficou para trás com o passo dado. Se a bengala esbarrar em alguma coisa, é só parar e estaremos a um passo do obstáculo. Desse modo, fica-se sempre atrás de um possível perigo.
Seria esta a minha forma de me mover entre as pessoas, no metro, nas ruas, dentro de casa. Não poderia guiar. E correr seria assustador. Pelo menos no início. Até habituar-me a viver sem uma coisa fundamental: a visão. Se eu fosse cega não teria dias. Só noites.
Muitas vezes dou por mim a fechar os olhos e a tentar fazer as coisas como eles as fazem. Sem ver. Quase uma culpa sinto, por vezes, por ter tudo tão facilitado. E se de repente nos vendassem os olhos? Como ir para o trabalho, à praia, surfar, sair à noite, ler um livro, escrever, ver um filme, pintar, combinar cores, como passear na rua sem ter medo dos carros, como correr porque estou atrasada, ou andar sem me preocupar com os buracos que as ruas possam ter, com as escadas íngremes, e os obstáculos inesperados? Como olhar para a cara das pessoas que eu amo, mais do que tudo? Como olhar para a cara do meu sobrinho e vê-lo crescer? Vê-lo sorrir. Olhar para mim. Mas as coisas passam por nós sem as vermos. Como os nossos teclados. Olha agora para o teu. Nunca reparaste nas letras F e J, ou no número 5? Existem pontos em relevo, que normalmente não vemos, porque não precisamos deles. Mas estes pontos são perfeitamente perceptíveis pelos dedos. E os cegos utilizam-nos para colocarem os indicadores e a partir daí, encontrarem todas as teclas que necessitam, e que nós, visuais, podemos ver. Facilmente.
E depois nós sentimo-nos tristes com coisas que são facilmente solucionáveis. É só querermos. E sermos positivos. Enquanto estamos preocupados com o nosso umbigo, e com as nossas tristezas, um mundo de coisas desfila pelos nossos olhos, sem as vermos. Olhamos sem ver. Se pensarmos bem, qual será a pior cegueira?
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13.1.06
Como teria sido?
Como teria sido?Como teria sido o teu sorriso pela manhã?
O teu cabelo moldado pela almofada?
Dar-me-ias um beijo junto com um bom dia?
Como teria sido?
Como teriam sido as tuas gargalhadas partilhadas?
As tuas lágrimas entornadas?
O teu cansaço descansado em mim?
A tua voz.
Rouca.
O teu amor.
Louco.
Meu amor.
A nossa vida connosco
como teria sido?
10.1.06
Cobrir a boca quando se boceja
Desde pequena que os meus pais me dizem que quando eu bocejo devo colocar a mão na boca (não de forma sexy!). Assim como quando se espirra. Mas o espirrar eu percebo, espalha germes. ;) Agora a única sequela do bocejo sem a admirável mão a tapar é a de corrermos o risco de exibir o que comemos na paparoca anterior. Mas esta prática não vem de hoje ou de há cem anos. Foi inaugurada há milhares de anos, quando o homem (muito iluminado, sem dúvida) receava que o seu espírito pudesse escapar pela boca aberta ou que algum espírito mau pudesse entrar. Eu cá tenho medo das moscas.Bater na madeira 3 vezes para afastar o azar?
A versão original consistia em bater no tronco de uma árvore e o nascimento desse costume pode estar, provavelmente, no facto de os raios caírem frequentemente sobre as árvores. Os povos antigos, desde os egípcios até os índios do continente americano, teriam interpretado este facto como sinal de que as árvores seriam as moradoras terrenas dos deuses. Assim, toda vez que sentiam culpados por alguma coisa, batiam no tronco com os nós dos dedos para chamar as divindades e pedir perdão. Ou então, batemos três vezes na madeira para afastar o azar porque sofremos de Parkinson.Crendice - Parte III - Nao ha duas sem tres
Eu trabalho no Chiado. Hoje estava sentada com a Luísa, na nossa hora de almoço, perto do Largo do Carmo. Da janela do restaurante vê-se a rua. Vê-se o passeio e uma rua estreita que sobe, e que também desce, estranhamente. ;)Do restaurante podíamos ver também uma escada encostada, a ocupar o passeio.
Ninguém sabe porque nos sentimos impelidos a não passar debaixo de uma escada, mas ninguém passa. Ou quase ninguém. E acredito que quem tem tanta coragem e passa, depois pensa invariavelmente: Será... será... que não vai haver problema? - e com os olhos a tremelicar. ;) Foi cómico ver as pessoas a desviarem-se supersticiosamente da famosa escada. Apenas uma em oito pessoas, seguia o seu caminho sem se desviar. Uma mulher, como se tivesse visto um fantasma, deu um salto para a rua, para se desviar da escada. Levou com um carro.
Crendice - Parte II
Recebi duras criticas por ter sido tão lacónica. A pedido de várias famílias, vou espraiar-me. Superstição. O que podemos falar sobre superstição? Agarremos o Dicionário Aurélio. Este benigno glossário esclarece superstição da seguinte forma: Sentimento religioso baseado no temor ou na ignorância, e que induz ao conhecimento de falsos deveres, ao receio de coisas fantásticas e à confiança em coisas ineficazes. Como dizia, amanhã falaremos sobre as Dores de Parto.Crendice - Parte I
Meu queridos leitores, o tema de hoje é superstição.Ora muito bem. Amanhem uma cadeira e acomodem-se.
Superstição. Do latim, superstitione.
E pronto, espero que tenham gostado.
Amanhã falaremos sobre as Dores de Parto.
No cartorio ou na Igreja
Am7 D7/9 Am7 D7/9Am7
D7/9 Am7 D7/9
G7 C7+ G7 Dm7 E7
Am7
D7/9 Am7 D7/9 F7+ E7
F7+ E7 Am7
Gm7 C7/9
F7+ E7
Am7 Gm7 C7/9
F7+ E7
Am7 D7/9 Am7 D7/9
F7+ E7
Am7 Gm7 C7/9 F7+
E7 Am7
9.1.06
O meu tio-avo que era pintor morreu
Fizeram-lhe um funeral em grande, mas eu não fui. Não o queria ver nem pintado.Dizem que quem ama sente ciúme
Ciúme. Suspeita. Conjectura. Dúvida. Incerteza. Atreladas estão estas palavras a uma outra: Dor. O ciúme é enfermidade. Um vício. Uma perturbação. Uma fraqueza. Uma indisposição. Ciúme, o monstro de olhos vermelhos que ridiculariza o sentimento do qual se alimenta: o amor. Gasta-o. Desgasta-o. Um monstro que avoluma as coisas pequenas, distorce os significados dos pequenos sinais e torna suspeitas em verdades. Falsas. Arruína o que se vive, o que nos faz sentir. E deixa-nos vazios. Deixa-nos pequenos. Ridículos. O ciúme é um amor vazio. Há uns anos, fiz algumas coisas por ciúme. Nunca fui doente, mas o monstro nascia dentro de mim. Sem fundamento. Mas o ciumento não precisa de motivo algum para ter ciúme. É ciumento porque o é. Agora depois de ter destruído o monstro, vejo tudo como é, e agora que sei amar, sei viver.5.1.06
Amor?
No outro dia, uma amiga pediu-me para eu lhe dar a minha definição de amor. E eu pensei em ti. A ela disse-lhe, para mim, é rever-me nele. Sentir que nos encontrámos, e esperar que nos voltemos a encontrar. É o meu corpo reconhecer o dele como meu. E o meu beijo ser o dele. É sentir-me em casa no deserto, na cidade, debaixo de uma árvore, no meio do trânsito, porque estou com ele. É querer respirá-lo. Deixá-lo respirar-me. É sentir as certezas que não se ouvem. E por isso, sem saber que ele me amava, amei-o. E sem ele saber que me amava, amou. Provavelmente ainda não saberá. Mas sentes? Amar, mim, é isto. É rir-me ou sorrir quando penso nele. Sentir tudo vivo e quente e colorido. É o tempo deixar de correr, ou passar por mim a correr. É o nada ser tudo, porque ele existe em mim. É escrever e nada ser verdadeiramente poético, porque toda a poesia está em nele e em mim e em nós. É querer que ele vá, sem saber se ele volta. É dar tempo ao tempo. É correr o risco de parecer precipitada por falar com tantas certezas do que sinto. É rasgar a boca quando sorrio. Porque penso nele. É rasgar o meu corpo ao me abrir. Para ele. Porque o amor que sinto por ele é maior do que o meu corpo. E preciso de o deixar sair. Para entrar nele. É sentir-me crescer. É sentir que vou explodir se não escrever sobre ele. Mesmo que esconda as palavras e não deixe escapar nada dos textos que me prendem a ele. Escreve-lo numa folha de papel, desenhando o seu nome como se percorresse o seu corpo. Amor. Quatro letras de prazer. E repeti-lhe, para mim, é rever-me nele. E falo nele, porque não quero dizer o teu nome. Porque gosto de o ouvir tão bem dentro de mim. Como um segredo que guardo, e só para mim. Porque eu sei quem és. Sei como te escreves. Guardo-te em sons, em músicas, em palavras, em imagens e em cheiros. Como se te resguardasse do exterior, guardo-te dentro do meu corpo. Onde já estiveste. Onde ainda hoje te sinto. E onde fazes sentido.Pintando uma tela
Vemos um homem com uma boina e um bigode interessante a pintar uma tela. Tinta por todo o lado e as janelas fechadas. Já vai no quinto ou sexto quadro. Continua a pintar freneticamente quando cai para o lado.Foi a morte do artista.
Dois ladrões fogem à polícia
Dois ladrões fogem à polícia cheios de sacos com dinheiro e jóias. Têm aquele ar de ladrões, meias mal enfiadas na cabeça, camisas com listas e tal. Entram numa pista de atletismo e seguem a fugir do polícia. Um atleta vê-os passar a toda a velocidade por ele. Depois aparece um polícia que entra na pista e a correr ao lado do atleta pergunta - Ó faxavor, viu dois indivíduos suspeitos com ar de ladrões a passar por aqui a correr? - Desculpe? - enquanto correm lado a lado. - Sim. Dois indivíduos com gorros, meias na cabeça e sacos onde furtavam dinheiro e jóias e telemóveis no valor da quantia nomeadamente de 13 mil euros? - Quanto é que são 13 mil euros na moeda antiga senhor polícia? - Não tem uma máquina por aí por acaso? - pergunta o polícia interessado em esclarecer o atleta. - Por acaso até tenho - e continuam a correr dentro da pista de atletismo, com cuidado para se manterem cada um na sua pista. - E pode emprestar-me a dita cuja? - Claro senhor polícia. Sempre ao dispor da polícia. - E para quê pedi-lhe eu a dita máquina? - Não sei já bem senhor polícia. - Nem eu. E já vai em quantos minutos? - Treino de 20 minutos. - Eu vou em 15 minutos - diz o polícia já a deitar os bófias pela boca. - Entretanto passam os criminosos por eles, já com uma volta de avanço. O polícia lembra-se. - Ah, perguntava-lhe eu se por ventura teria visto dois indivíduos de côr a correrem por aí com ar de ladrões, gorros na cabeça e sacos com artigos de valor furtados. - De que côr? - Esqueça a côr, viu algum suspeito a correr de modo indivíduo por aqui? E os criminosos passam por eles, já na segunda volta de avanço. - Suspeitos? Como suspeitos? Como aqueles dois que parecem estar a fugir da polícia? - e aponta para eles. - Isso mesmo - diz contente o polícia - isso mesmo. - Ah, não vi não. Lamento não poder ajudar. - Não faz mal. Obrigado pelo seu tempo. - Ao seu dispor.Para a segurança de todos
Uma das muitas estúpidas leis do Texas conta-nos que quando dois comboios se encontram numa encruzilhada exactamente ao mesmo tempo, os dois têm de parar automaticamente, e nenhum deve passar e retomar caminho antes do outro ter desaparecido. Lembrei-me então que também devia ser proibido deitar lixo para fora dos aviões.Este post pertence a uma corrente
Este post nasceu na China, e depois de traduzido nas várias línguas percorreu o mundo até chegar a um blog em Portugal. Se acabou de ler estas palavras terá de deixar um comentário aqui com o nome da pessoa que está no seu pensamento, e ainda copiar e enviar este post no espaço de 13 minutos para 146 pessoas. Se fizer tudo isto, a pessoa que o ama desesperadamente mas até agora ainda não deu sinal de vida, irá manifestar-se.3.1.06
2006 seja muito bem vindo ao meu humilde blog
É chegada a altura das piadinhas luzidias que me fazem encrespar das unhas dos pés às pontas do cabelo, até porque são constantemente repetidas por esses répteis, variando brilhantemente. Oh sim. Temos frases como 'Olá Sofia, já não te via há um ano.' Ou ainda 'Já não nos vemos desde o ano passado, tanto tempo...' Para os que terminam todas as frases em pergunta temos o 'Não falamos há bué. Um ano, não é verdade?' E anexados a estes comentários, recebemos sempre o clássico riso 'matreiro' e um piscar de olhos daqueles em que metade da face fica totalmente distorcida. 'Bom ano' é o que nos desejam já ao virar da esquina e depois de nos aniquilarem com estas notas de 'humor'.30.12.05
A vida eh assim
Quando não tinha dinheiro, tinha tempo de sobra para viajar. Agora que tenho dinheiro, falta-me o tempo para viajar.29.12.05
A água desenvolve um ciclo
O chamado ciclo da água é o caminho que ela percorre. A chuva, basicamente, é o resultado da água que evapora dos lagos, rios e oceanos, formando as nuvens. Quando as nuvens estão carregadas, libertam a água na terra. Ela penetra no solo (grande maluca) e vai alimentar as nascentes dos rios e os reservatórios subterrâneos. Se cai nos oceanos, mistura-se às águas salgadas e volta a evaporar, chove e cai na terra.A quantidade de água existente no planeta não aumenta nem diminui.
Acredita-se que a quantidade actual de água seja praticamente a mesma de há 3 bilhões de anos. Isto porque o ciclo da água se sucede infinitamente. Não seria gracioso se o alimento que comemos ontem tivesse sido preparado com as águas que, tempos atrás, foram aproveitadas pelos romanos nos seus famosos banhos públicos?
27.12.05
O quarto de um obeso
Um buraco na cama grande, feito ao longo dos tempos. Um homem obeso, que sofre de gula. O excesso do consumo alimentar, o desperdício. O consumismo. A obesidade tornou-se uma degradação, uma transgressão à lei da vida porque enquanto uns morrem de fome, este empanturra-se de comida. O único objectivo da vida do Carlos é comer. Comer muito e bem. Um prato enorme numa mesa que simboliza este homem que se confunde com a própria comida. Receitas de comida espalhadas por todo o lado. Fotografias de pratos de comida em todo o lado, em molduras. Comida, doces, sobremesas, todas meias comidas distribuídas aleatoriamente pelo quarto. Ao limite podíamos ter uma cama de chocolate, uma cómoda de baunilha, tapetes de natas. Roupas XXL atiradas ao acaso, umas no chão, outras nos móveis, porque a organização do quarto está posta de lado dado que o mote da vida deste homem é comer. Uma televisão, um sofá, e um tabuleiro no sofá, ainda com comida. Nódoas nas roupas de ketchup, mostarda e maionese, pedaços de comida a decorar o sofá e a cama. Carlos, nascido para comer. O quarto cheira a fritos, a comida.O quarto de um anao optimista
O quarto do anão chamado Adão espelha a sua condição. A mobília, desde a cadeira, à mesa, ao sofá, é toda feita à sua escala. Menos a cama, mas esta tem umas escadas pequenas para que o Adão consiga subir e descer quando quer. O quarto está decorado com bonecos em miniatura e fotografias dos hobbits do Senhor dos Anéis, povo pequeno da Terra Média. Tem um poema exposto numa das paredes de Fernando Pessoa que diz, entre outras coisas “Porque eu sou do tamanho do que vejo. E não do tamanho da minha altura”. Aqueles cheiros para interiores dos carros, mas postos no chão. Quanto mais baixa a pessoa estiver, mais facilmente sente o aroma.O canto de um toxicodependente
Roupa suja no chão. Cama desfeita. Lençóis no chão. Uma mesa com vestígios de droga. Um limão cortado. Uma seringa. Uma colher. Várias carteiras abertas com documentos em cima da cama, vários telemóveis, pequenos roubos para alimentar o vício. Um espelho quebrado, porque ele não suporta ver-se ao espelho. Este homem não tem nome. A droga tirou-lhe também isso. O quarto cheira a limão.O quarto de um padre comum
O Padre Afonso Deleite, como todos os outros Padres tem 3 inimigos da alma: O mundo, o diabo e a carne. O quarto está repleto de ícones religiosos, tem uma bata deitada na cama, branca, limpa e bem feita, a cruz de Cristo pregada na parede, a Bíblia, livros religiosos na cómoda e uma mala deixada aberta em cima da cama com conteúdos menos próprios: duas revistas pornográficas, fotografias de uma rapariga em roupa interior, um charuto cubano, erva, fotografias de carros luxuosos, cartas de póquer, uma garrafa de vodka, e um peluche. Este quarto cheira fortemente a álcool, ou a vinho.A casa de uma maniaca compulsiva
Quando simples manias viram doença. Esta mulher de nome Frederica é maníaca compulsiva: obcecada, tem um excessivo zelo pela limpeza, sente necessidade de ter tudo sempre arrumado, organizado, simétrico. Obsessão. Fixação. Só usa uma vez as toalhas com receio de contaminações. As toalhas imaculadas, expostas. Os rituais são as verificações repetitivas e os receios a contaminação. Vive com o filho ainda criança e tem um medo obsessivo de o magoar tocando em objectos que o possam ferir. Todos os objectos pontiagudos, as esquinas dos móveis, têm protecção. O próprio espelho tem uma protecção plástica, o que o torna estupidamente inútil porque a imagem que reflecte é sempre baça. O quarto cheira a detergente, fortemente.O quarto de hotel de um executivo
Caso lascivo entre um executivo e a sua secretária. A cama desfeita, peças de roupa espalhadas, quadros tortos na parede, um invólucro de preservativo rasgado e no chão, toalhas espalhadas, uma máquina de filmar no meio da cama, um espelho no tecto, marcas nas paredes das mãos da mulher, cheiro de luxúria no ar. Um anel na mesinha de cabeceira, perto do telemóvel, uma moldura com fotografia no chão. Uma lista pendurada no espelho de desculpas dadas à mulher do executivo para as suas escapadelas mórbidas, algumas já riscadas, usadas. O quarto cheira a mistura de dois perfumes intensos.O quarto de um escritor psicopata
Egocentrismo patológico, anti-social, comportamento aparentemente tranquilo, falta de empatia com toda a gente, mentiroso, cínico, torturador de animais. Este psicopata é um escritor frustrado, que à falta de inspiração sai à rua à procura de vítimas, e constrói na realidade histórias para mais tarde descrevê-las no seu livro. Um psicopata é um egocêntrico patológico.O escritor e psicopata Narciso Sarabulho, centrado nele mesmo, só leva em consideração os seus desejos, opiniões e interesses. O quarto vai reflectir a sua personalidade psicopata, frustrada e egocêntrica. Fotografias e recortes de jornal de histórias de assassinatos e desaparecimentos em que ele é o procurado. Tudo muito limpo, organizado, branco, a contrastar com a escuridão da personagem. Fotografias exaustivas dele, com o gato, com o peixe, poucas fotografias com outras pessoas mas estas cortadas, fotos de grupos mas colocadas na parede com outras fotos por cima a tapar as outras pessoas, espelhos por todo o lado, nas paredes, no tecto, no armário. Tem uma prateleira só com pedaços de cabelo e unhas. Recordações. E uma máquina de escrever.
Daltonico
O Pedro ate acha piada ao gene recessivo do seu cromossoma X que o fez nascer daltonico. Tem um poster do fisico John Dalton, tambem ele daltonico. O Pedro eh incapaz de distinguir entre o vermelho e o verde. Imaginem-no a guiar e a encarar os sinais de transito. Mas sente-se um homem de sorte, ja que o seu primo nasceu com a visao acromatica vendo apenas em tons de cinza, preto e branco. Consequentemente o quarto do Pedro eh uma mistura ebria de cores. Nada combina com nada. Mas nos armarios as roupas estao ordenadas de maneira cromatica. O problema surgiu quando a empregada do hotel, na maior das boas intencoes, resolveu arrumar a roupa de maneira diferente. Instalou-se a confusao. Por vezes, quando os empregados nao se lembram do nome do Pedro, ele transforma-se naquele senhor Piroso ou naquele senhor Estranho que anda com sapatos de cores diferentes. Ou no senhor Arco-iris, ou no Carro Alegorico. O problema agrava-se quando tem de escolher a linha do metro depois de lhe indicarem Va pela azul. Quando o Pedro era pequeno todos os lapis de cor tinham etiquetas com os nomes das cores. E imaginem um electricista daltonico. Ou um daqueles homens corajosos que desarmam minas e bombas.Se as pessoas soubessem...
... que quando entram na queixa, na culpa, no sofrimento, baixam o teor das suas energias e se tornam alvos dos espíritos infelizes, nunca se deixariam levar pela tristeza.20.12.05
Sing from your heart
A boy sits with his brother’s head on his lapbecause his baby brother is taking a little nap
sing one more song
but do not sing from the book
the pages might turn over
and once the pages turn
you will stumble on forever
and once the pages turn
you will find the wrong song.
Antes de mais...
Preciso entender porque é que faco determinadas perguntas. Mesmo antes de querer saber as respostas...14.12.05
Um dos maiores sustos da minha vida
Nós somos as nossas experiências. Todos os dias as pessoas ajudam-se menos. E há mais violência. E é por causa do acréscimo de violência que as pessoas se ajudam menos. É um ciclo. Vicioso. Pernicioso. O que vou partilhar convosco foi um dos maiores sustos da minha vida. E como tal, alterou o meu comportamento. Não posso fazer o mesmo erro duas vezes.Ontem de noite, tive de esperar dentro do carro para que um vizinho meu entrasse dentro do prédio. Esperei uns minutos e depois peguei em toda a minha catrefada e arranquei. A pé. Para o prédio. O meu carro parece a minha casa. Tem lá tudo. Tenho ténis que pensava que tinha perdido há dois anos, uma toalha, duas partes de cima de biquínis, um cachecol do inverno passado, um saco com papeis que todos os dias penso em deitar fora, uma quantas latas de Coca-Cola, um velhote, e água. O velhote foi brincadeira. Não guardo os corpos no carro. Voltando ao assunto importante, esperei no carro porque não me queria cruzar com esse tal vizinho. Não tenho nada contra vizinhos. Só contra esse em especial.
Em finais de Agosto deste ano, fui jantar com um rapaz. E lá para as 2 da manhã já estava de volta a casa, quando entro no prédio e do elevador sai, com uma brutalidade e desequilíbrio incrível, o tal vizinho a evitar. A minha reacção foi ajudá-lo. Agarrei-o como pude, e mal, porque o deixei cair de novo. E ele ia soltando frases desconexas como ajuda-me, a minha namorada deixou-me, tentei ir aos meus pais, desmaiei na cozinha, tenho medo, tenho frio, tenho calor, a minha namorada, sinto-me mal, vou morrer. Disse-lhe logo que o meu pai era médico e que talvez o pudesse ajudar. Propus-me a levá-lo para minha casa, para o meu pai o analisar. Ele gritou, entre desmaios ou faltas de força súbitas, aquela mesma parafernália do Não, não, médicos não, tenho vergonha, a minha namorada deixou-me, desmaiei na cozinha, só preciso de ir para casa, quero ir para casa, não consigo, vou morrer. E eu, na mais boa fé, perguntei-lhe o que podia fazer para ajudar. Estúpida, desde os ossos, passando por todo o sistema circulatório, até à mais fina e superficial camada da pele. Estúpida. Preocupada com ele, e tal como pedido, levei-o em braços de volta ao elevador. Levei-o como podia, e mal, porque o deixei cair outra vez. Carreguei no andar do vizinho a evitar, e lá fomos nós. Tencionava abrir-lhe a porta e atirá-lo lá para dentro. Ele, cheio de tremuras e pálido como uma parede estupidamente branca, disse-me quase a chorar Não consigo abrir a porta, não consigo, vou desmaiar, sinto-me tão mal, e ela foi embora, e estou mal, sinto-me fraco, vou desmaiar, vou morrer. Eu abri-lhe a porta e ele caiu para o chão. Caiu. Com dificuldade tentei levantá-lo e apoiá-lo e levei-o para a casa de banho do apartamento para lhe atirar com água para cima, fui a correr à cozinha buscar sal, buscar açúcar, já não sabia o que fazer. Estupidamente não o deixei à sorte dele. Estupidamente continuei a tentar ajudá-lo. Já estava dentro do apartamento. E nem pensava nisso, naquele sufoco de tentar minimizar o problema dele. Estupidamente agi como a Madre Teresa de Calcutá. Devia ter, ainda fora do elevador, telefonado para o 112 ou qualquer coisa do género. Mas não tinha dinheiro no telemóvel, e tampouco isso me tinha ocorrido. Atirei-lhe água para cima e molhei a parte de cima da camisa dele. E ele continuava com aquelas frases desconexas, a deixar a cabeça cair repetidamente contra o lavatório. Depois disse Preciso de me deitar, preciso de me deitar, estou fraco, estou mal, estou fraco, estou cansado, preciso de me deitar, leva-me para o quarto por favor. E eu estupidamente levei-o. Deitei-o lá e ele pegou na minha mão, o que me fez sentir muito desconfortável, e disse Obrigada vizinha, que pelos vistos ele não queria evitar, e repetiu um fraco obrigada, se não fosse a vizinha a ajudar-me... e nem sei o seu nome. Eu também não lhe disse como me chamava, e tirei, com dificuldade porque ele me segurava com as duas mãos, a minha mão da dele. Se me trouxesse um copo de água. Obrigada. Sinto-me tão fraco. E ela deixou-me. E eu comecei a suspeitar, então disse-lhe que ia buscar-lhe um copo de água e que depois tinha de me ir embora. Ele que descansasse que ficava bem. Eu queria era escapar dali. Então saí do quarto e para ir até à cozinha tinha de passar pelo hall de entrada. De lá olhei para a sala, cuja única divisão entre a sala e o resto da casa era um biombo. Quando os meus olhos passaram pela sala, estava praticamente vazia, com a excepção de uma câmera de filmar profissional, daquelas mesmo grandes, num tripé, direccionada para a esquina, para a junção de duas das paredes brancas. Dois focos gigantes, ao lado da câmera, e a apontar para as paredes. Relativamente perto um computador, e no monitor, vi uma imagem de umas pernas de mulher abertas em V, se é que me entendem. Consegui ver-lhe o estômago. Passei-me. Foi a gota de água. O homem é tarado, tenho de sair é daqui. Já não fui buscar o copo de água, ele que fosse buscar o copo de água. Ele que bebesse da banheira. Ele que morresse de sede. Voltei-me e encarei a porta. A porta estava almofadada. Mas não daquela maneira que se pode ver em algumas casas, como aquelas casas antigas de meados de 1700 com portadas com elementos decorativos e elegantes portas almofadadas. Esta porta estava almofadada com o objectivo de a fazer desaparecer, por ele com toda a certeza, a porta toda tapada com espumas, panos, agrafos, pregos. Uma porta de filme de terror. Entrei em pânico. Procurei silenciosamente e freneticamente a maçaneta da porta. Nada. Encontrei um buraco na espuma e meti lá a mão e depois o braço, à procura do trinco. Em vão. Olho para trás e vejo o homem, já em perfeito equilíbrio a trocar de roupa, de costas, a vestir uns boxers que estavam a subir, ainda nos joelhos. Vi-o nu, de costas. O pânico instalou-se em mim. Ele não me podia ver agora, porque ia perceber que eu tinha entendido o esquema. Também não encontrava o trinco. Não tinha dinheiro no telemóvel. Olho para o chão, e vejo o telemóvel dele a carregar. Tiro-o do cabo que lhe carregava a bateria e levo-o para a cozinha. Fecho a porta. Não tinha chave. E ele chamou-me, com uma voz, trémula, fraca, e agora sei, falsa Ó vizinha, tenho sede, tenho tanta sede, traga-me um copo de água, traga-me alguma coisa, sinto-me tão mal. Eu respondi-lhe um Já vai contido, enquanto tentava acalmar as mãos e os dedos o suficiente para conseguir ligar para os meus pais, dez pisos abaixo de onde eu me encontrava. Deixei cair o telefone uma vez. Olho para a janela, não podia saltar. São demasiados andares. Era um telefone não sei de que geração, todo estranho e estava tão nervosa que ao carregar nos números, ia parar a todo o lado, entrava na parte das fotografias, nas mensagens, e não conseguia fazer a chamada. Deixei cair o telefone desta vez para cima de uma cadeira da cozinha. Olho para as facas. Olho para a janela. Pego no telefone outra vez até que pedi a Deus calma, e concentradamente consegui marcar os números de casa. A minha mãe veio ensonada ao telefone e eu disse que estava no sítio tal para ela ir buscar-me. Rápido. Em menos de um minuto ela estava a bater com toda a força na porta, na porta disfarçada, dissimulada, tapada, desaparecida. Ele, já totalmente bem, porque se esqueceu de fingir tal foi a surpresa, veio ao hall de entrada e olhou para mim que entretanto tinha saído em direcção à porta. E eu disse apenas, em choque, Como é que se abre? E ele meteu o braço por um lado e a mão noutro lado e abriu-me a porta, ainda com os olhos escancarados, sem saber o que dizer disse Obrigada qualquer coisa, porque o qualquer coisa eu já não ouvi. A essa hora já devia estar em casa, tal foi a velocidade com que desaparecemos dali. Sentei-me no chão da minha cozinha e com a minha mãe chorei durante uns quinze minutos. Podia ter acontecido uma coisa muito má. Agora, infelizmente, podem cair ao meu lado, que eu não ajudo se tiver de me expor ou colocar-me numa posição vulnerável. Telefono para o 112, e que a sorte de quem estiver prostrado, decida o resto.
28.11.05
Deixo no papel palavras escritas por mim sobre ti
...quando o que eu queria era escrever no teu corpo o que sinto por ti.23.11.05
A ti...
Os meus limites são quase fluidos.Nao me sinto espartilhada. Por quase nada.
Só por ti.
Só por ti.
Não estou imune a ti.
Não me sinto impermeável às tuas lágrimas.
Ou ao teu sabor.
E ele diz que sim. E eu contrario-o.
Encerro as pálpebras e mantenho-te aqui.
É uma inevitável proximidade. Compulsão.
Constrangimento.
Sou permeável a ti.
22.11.05
Limitam-me assim o dia...
Mandaram-me para casa assim que cheguei ao trabalho. Trabalho infantil, dizem. Desmotivada, por não poder trabalhar hoje, saí. Gritei para chamar o elevador. Entrei no elevador e reparei que também não podia andar de elevador. Isso também me foi proibido hoje. Porque não estava acompanhada por um adulto. Saí do elevador e fui pelas escadas.21.11.05
Sao queridos, mas...
Tudo bem, vou fazer anos amanha... e? Todos os anos é a mesma coisa. Digo-lhes sempre para nao enfeitarem as ruas. E eles continuam a insistir nesta pompa toda, ja está tudo cheio. Só luzes e enfeites por todo o lado. É só o meu aniversário.5.11.05
Saudades
Saudades dos tempos em que passava tardes e tardes a construir o meu mundo de playmobil. Saudades dos tempos em que acordava e o meu único objectivo era brincar. Saudades dos tempos em que pensava que o mundo era todo cor-de-rosa. Saudades dos tempos em que pensava que o meu pai e a minha mãe dormiam na mesma cama, única e exclusivamente porque eram casados, e os casados dormem no mesmo quarto porque sim. Saudades dos tempos em que o meu único conceito de um casal era um homem e uma mulher. Saudades dos tempos em que não percebia o que queria dizer terrorismo. Saudades dos tempos em que comia cerelac. Saudades dos tempos em que brincava ao elástico, aos carrinhos, aos médicos, à macaca, às escondidas, à cirumba.Eu também gostava de jogar Super Nintendo, e jogos de computador. Adorava o Autorun, mas o computador não era o meu melhor amigo. Saudades dos tempos em que chegava a casa com o joelho todo lixado terceira vez na semana. Agora as crianças já não chegam com os joelhos lixados a casa. Chegam com os dedos inchados de tanto jogarem game boy.
4.11.05
De costas voltadas à razão

Não te vejo mas o meu ouvido satisfaz-se
E o meu corpo contrai-se em desejo dissimulado
Em prazer inacabado dou-me a ti
E porque quero mais, abraço a loucura
Entramos neste caminho de olhos vendados
Arremessando o cérebro ou pousando-o de parte
Neste embate de forças contraditórias que se convidam
Que querem, não querem
E novos astros acordam apenas para repetir o que já foi feito
Entregando as consequências aos novos e as críticas aos velhos
Porque tenho fome de ti. Porque és vício. Porque és vidro
Porque sou frágil. Porque sou crente
Abre-se a porta e quero invadir sem atentar
Paulatinamente saborear-te sem pensamentos ou apertos
Deixar-me sair, deixar-me correr e escorrer
Atingidos naquele ponto delicado e gentil do teu peito
Nessa madrugada choquei com a loucura quando te aceitei junto de mim
Sem consciência abraçámos de vez a demência
E porque me corrompeste, quando alguém expirar em casa
Enfio o corpo no carro e digo que morreu a caminho do hospital
Escrevi-te em mim dolorosamente cravando-te na minha pele
Espalhando o preto do teu lápis pelo meu corpo branco
Destruindo a minha pele com riscos teus
Porque tive estupidamente fome das tuas vírgulas, dos teus sinais
Lamentavelmente pintei-te em mim com cores inconscientes
E o Céu tornou-se mais anil e mais assustado
Agora choro um passado escrito impossível de cancelar
E nestas horas é bom ser-se valente
Profundamente eu sei, sim sei
Teria sido mais fácil explicar a uma criança a trajectória
de quem morreu injustiçado, a ter-te resistido
Mesmo os bons artistas sucumbem.
Mesmo os bons artistas sucumbem.
3.11.05
Se tenho o teu amor...
Apenas dá-me a tua luz. E não te peço mais nada.Apenas dá-me a tua alma. E não te peço mais nada.
Apenas dá-me o teu corpo. E não te peço mais nada.
Dá-me o teu amor. E não preciso de mais nada.
Vejo-te no escuro

A nossa pálpebra é a linha da separação e da distância. É o olhar que nos mostra que estamos longe, ou nunca demasiado perto. De olhos fechados sentimos quem amamos. De olhos fechados o nosso tacto investiga o que sentimos, e o tacto é a proximidade, é o calor. O olhar afasta. O toque reúne. Por isso é que em determinados momentos fechamos os olhos. Desligamos a visão e abrimos portas aos outros sentidos. À noite fecho os olhos e encontro-me contigo.
O inferno de nunca ter amado
Uma vez um amigo caracterizou-me dizendo que o que mais recordava de mim era o meu relativismo absoluto do Mundo, a favor do amor. Para mim é tudo o que importa. É o que nos preenche, e o que levamos connosco quando morrermos.Amar. Amor. Amo-te. Palavras que sabem bem quando as pronunciamos, quando as sentimos. A nossa boca insurge-se, sente prazer ao abrir-se, os lábios encontram-se quando deixam sair as palavras, e os ouvidos deliciam-se com a fonética. Sabe-nos bem dize-las. Ouvi-las. Na cama, ao acordar, ao adormecer, enquanto estamos os dois bem acordados. Sabe bem ouvi-las no supermercado, na fila do autocarro, num telefonema a meio da tarde. Um dia de chuva é bom porque amamos e somos amados. Tudo é melhor. Mas ainda assim há pessoas que receiam amar. Cobardes aqueles que nao amam por medo de chorar. Benditos os que choram por amor. O inferno é nao saber amar.
27.10.05
Sou nerd?
Descobri que sou praticamente uma nerd. Lembro-me dos meus 10 URL preferidos mas não sei o meu código postal todo. O layout do meu blog é até giro, mas não consigo ler a minha própria letra. Às vezes a minha mãe comunica comigo por sms mesmo estando na mesma casa. Quando alguém diz rato eu não visualizo o animal pequeno e felpudo. Uma vez estava a pintar-me, coisa rara, e enganei-me. Pensei automáticamente Ctrl-Z (undo). Esqueci-me do aniversário do meu irmão porque o calendário 03 não funcionou. Um dos meus ex-namorados conheci-o no mIRC (tinha 16 anos, se é que serve de desculpa). Uma vez desliguei o modem e senti uma sensacao incrível de vazio. Lembro-me do meu pai me ter perguntado como estava o tempo lá fora e de eu ter ido ver à net. Tenho dois blogs (www.spahclub.blogspot.com). Gosto de RPGs. Para além de tudo isto, faco tudo o resto (surf, praia, ler, escrever, sair para dancar, ouvir música, juro-vos que sou normal, desportista, saudável, divertida, pick me, please pick me....!!!).Convencido!
Se podemos dizer 'Sou alto', 'Sou forte', também devíamos poder dizer 'Sou inteligente' sem que nos achem arrogantes.13.10.05
Nua
O tempo pára quando te sinto deitado ao meu lado.Quando te sinto dentro de mim.
Isto não passa.
O tempo pára quando passo as mãos no teu cabelo
e entrelaço os meus pensamentos nos teus.
Quando oiço a tua voz.
Quando estou nua entrecruzada em ti.
E isto não passa.
O tempo pára quando os nossos corpos se agarram
como se fossem o último momento.
Quando perdemos os olhares um no outro.
Será que vejo tudo isto onde não há nada?
Mas porque me sinto tão tua,
e estou tão nua. De ti.
Pela Paz
Proclama-se perante o mundo que a religião não deve nunca tornar-se motivo de ou pretexto para a violência, para o conflito, para o ódio. Concordo. Se as religiões se reforçassem mutuamente na perseguição da verdade e do bem, poderíamos passar uma borracha na frase Um só Deus para tantos ódios. Mas os papas desencadearam as cruzadas contra os muçulmanos e a Inquisição contra os hereges. As nações cristãs perseguiram o povo deicida (os judeus) e converteram os povos através da política de missionários e canhoneiras, uma mistura de força armada e Espírito Santo. No entanto, não devemos, nem podemos, acusar os monoteístas de serem os únicos responsáveis pela guerra santa. As religiões politeístas, como o Hindu, que conseguiu criar o pacifista Gandhi e o brâmane que o assassinou, e como o Xintoísmo do Estado japonês, que nos apresentou os kamikazes, também apenas elas não podem ser responsabilizadas por todos os males da humanidade. Nenhuma religião tem o segredo da Paz, nem o monopólio do mal.Acredito que a única forma de lutar contra as guerras, alcunhadas de santas, está na educação do sentido de bem da humanidade. O importante seria alcançar a tolerância quanto às crenças alheias e o facto de cada religioso deve aceitar como os outros diferem de si. O que é, de resto, uma forma decisiva de as respeitar. As religiões concedem os recursos, os objectivos para uma vida válida, frutuosa e bem sucedida, mas não conseguem, nem é seu dever, garantir que as pessoas levem essa mesma vida. Cada um escolhe o seu credo, a sua vida. Mas o pior, e mais inconcebível ainda, é as pessoas usarem as religiões, em vez de delas desfrutarem. E usam-nas como armas para trazerem para si o poder prejudicando os outros. Olhando mais de perto, as religiões são um terreno fértil tanto para se crescer como indivíduo, como para o abuso de poder e para a subjugação do outro.
As pessoas religiosas deviam ser um recurso para o combate aos males que nos ameaçam. Então, porquê que isso não se passa? Em parte, porque cada religião tem os seus interesses próprios. São profundamente diferentes as narrativas que fazem do Universo, da natureza humana, dos objectivos de vida, de Deus ou de um poder superior, dos caminhos que levam à salvação, ou à perdição. Porém, a Regra de Ouro, muitas vezes esquecida até por quem as pratica, é enunciada no texto fundador de cada religião. Trata-se de uma declaração, resumida, do requisito fundamental para o comportamento humano: Tudo o que vós quereís que os homens vos façam, fazeí-lho também vós. Sendo esta uma obrigação crucial e comum a todas as religiões, porque andam estas implicadas nos piores conflitos do nosso mundo? E por que são alguns religiosos a contradição viva do que pregam ou dizem fazer?
Baseando-se na chamada Regra de Ouro, as pessoas religiosas podiam se encorajar mutuamente a atingir o melhor que as suas diferentes tradições exigem de si. Juntarem-se se no combate aos males que oprimem e que acabarão por nos destruir. Não poderão as religiões trabalhar em conjunto? Sei, no entanto, que mais de três quartos da população mundial acha que pertence a uma religião, por pouco ou nada que faça em relação a ela.
Brincando de jornalista
Só existe uma coisa mais terrível do que uma guerra. Fazer de conta que ela nunca existiu.Uma hora com os Ex-Alferes Milicianos Raúl dos Reis Ramalho e Joaquim francisco Couceiro Ferreira. Os testemunhos de dois dos homens que fizeram parte dos combatentes da guerra do Ultramar de 1961-1975.
Cresceram juntos e juntos escolhiam namoradas. Enviados separadamente para diferentes batalhões de combate, reencontraram-se após a descolonização. Raúl dos Reis Ramalho, 57 anos, Médico, Estomatologista e Cirurgião Maxilo-Facial, combateu no Chimbete, floresta do Maiombe, no enclave de Cabinda, em Angola. Posteriormente foi colocado em Nambuangongo, no norte de Angola, de 1970 a 1972. Joaquim Francisco Couceiro Ferreira, 57 anos, bancário e Coronel reformado, combateu na companhia de Atiradores de Artilharia 2718, em Moçambique. Na hora da conversa, relembraram as histórias que cada um guarda e não esquece, as experiências de dois homens rodeados de arame farpado e mata cerrada a cuja beleza as vicissitudes da guerra os tornava indiferentes.
Entre 1961 e 1975 centenas de milhares de jovens portugueses foram embarcados para os territórios da Guiné, Angola e Moçambique. Naquela altura, Reis Ramalho tinha 20 anos e era um idealista. Quando foi mobilizado para o Ultramar encarou a situação com naturalidade. Sentia ser o meu dever defender os interesses dos portugueses e de Portugal em África, afirma com convicção. Couceiro Ferreira sentia de maneira diferente. Na impossibilidade de evitar a mobilização só restava assumir a presença na guerra, na esperança do regresso a salvo.
Na mata verde-cinzenta por onde andaram, uns mataram e viram morrer. A guerra é isto, nada faz sentido. Reis Ramalho comenta é uma vida que se interrompe e continua, com o assentimento de Couceiro que o ouvia em silêncio, que a convivência diária com a morte lhes trazia um vazio enorme. A dor é grande, concordam ambos.
Uma das muitas ameaças durante a guerra eram as bombas colocadas e comandadas à distância. E o medo da incapacidade física era grande, exclamam quase em uníssono. Eram tomadas as precauções necessárias nos trilhos em que picavam o terreno minuciosamente e faziam avançar o carro, preparado como rebenta-minas. Todos os cuidados eram poucos. Uma mina anti-pessoal chegou a rebentar nas mãos de Couceiro Ferreira, o que lhe custou a interrupção do tempo de guerra e a cegueira do olho esquerdo. Mas, interrompe Couceiro Ferreira, éramos muito jovens, com a força mental capaz de enfrentar os maiores desafios. No entanto, nem todos tinham a mesma capacidade de superação, a mesma força, e as provações às quais eram constantemente sujeitos, faziam-nos ir vivendo permanente em extrema ansiedade. Muitos tiveram que recorrer a apoio psiquiátrico, acusa.
Durante o tempo em que combateram e o que mais os chocou, foi a frieza com que eram assumidas algumas atitudes, impensáveis noutras circunstâncias, comentam. Surge a pergunta de que se conheceriam algum caso de um combatente que tenha violado uma mulher nativa. A resposta é curta e esclarecedora Sim, confessa Couceiro Ferreira.
Estima-se que cerca de 35 mil veteranos reclamem a efectivação da contagem do tempo de serviço no Ultramar para efeitos de cálculos das pensões de reforma, a aposentação aos 55 anos, a criação da Rede Nacional de apoio aos ex-militares afectados por stress pós-traumático de guerra e medicamentos gratuitos nos hospitais militares. Foi lhes perguntado se estariam ou não de acordo com esta reclamação, e ouviram-se alto as respostas sem a mínima hesitação Totalmente a favor e A favor, claro. Está provado que os homens que estiveram no Ultramar ou noutro cenário de guerra têm em média menos dez anos de vida em relação a um indivíduo que nunca foi submetido a tal provação, segue Reis Ramalho e observa, com pesar, o stress pós-traumático de guerra é uma realidade. Couceiro Ferreia acrescenta, anuindo, foi catalogado como doença recentemente e definitivamente, pelos americanos na sequência da guerra do Vietname, informa.
No monumento aos Combatentes do Ultramar, na guerra de 1961 a 1975 não estão gravados os nomes dos que morreram em combate. Dois amigos, opiniões divergentes. Ramalho considera que a situação do soldado anónimo em nada desmerece os que padeceram durante a guerra. Muitos militares que não morreram também o mereceriam, afirma, e deixa ainda uma pergunta no ar Quantos inválidos físicos, quantos não já se suicidaram pelo que não conseguiram esquecer, e todos os outros que voltaram da guerra depois de terem lutado por Portugal? Também estes deveriam ter, na sua opinião, e então, o seu nome gravado no monumento. Couceiro Ferreira aproveita o espaço para censurar Só existe uma coisa mais terrível do que uma guerra: fazer de conta que ela nunca existiu.
Cada momento vivido fora das operações era aproveitado na tentativa de esquecer o ambiente hostil em que viviam. Com o intuito de abafar a ansiedade que as situações de combate provocavam, jogavam futebol, cartas, conversavam. Tentavam alhear-se, ainda que por breves momentos, da guerra.
Entre risos e olhares divertidos, agora diferentes, comandados pela sucessão de lembranças, ambos sustentam que imensos episódios curiosos e divertidos aconteciam. Couceiro Ferreira recorda um em particular: Os médicos que faziam serviço nas companhias não tinham preparação operacional. Desta forma, era fácil enganá-los. Um dia, dentro do aquartelamento e após o almoço, simulamos estar a preparar granadas para uma operação e distraídamente deixamos cair uma, pronta a rebentar, no colo do médico. Foi vê-lo aos berros, tentando proteger-se atrás dum móvel do eminente rebentamento. Como se o móvel o pudesse proteger!, abana a cabeça reprovando a ingenuidade do médico. Claro que a granada estava desactivada, observa entre risos.
Aquando perguntado se recebera alguma condecoração, Couceiro responde Assumi sempre as atitudes que julguei necessárias à defesa da integridade dos homens que me acompanhavam e acrescenta que nunca tive preocupações desse tipo. Após uma pausa, talvez passando em revista os quase dois anos de comissão cumpridos, sublinha Não fiz mais do que aquilo que eles de mim esperavam.
Tempos de angústia e dor. Consternação. Incerteza. Provação atrás de provação. Sem tempo para se ter medo. Saudade e raiva. A guerra é isto, nada faz sentido, conclui Reis Ramalho. Começa com disparos e acaba com as lágrimas de um soldado.
11.10.05
Nos somos as escolhas que fazemos.
Oico isto na minha mente muitas vezes. E escolho viver, a esconder-me. Escolho arriscar, a ficar-me. Escolho sofrer, a nao amar. Escolho uma tela colorida de frases que me magoaram e me fizeram chorar. Escolho uma parede amarela que me conforta quando penso no teu amor. Escolho um céu bem escuro porque me sinto só. Escolho um mar gelado que contemplo sem ti. Escolho viver, a esconder-me. Escrevo que me escapo de ti, nos textos que me prendem a ti. Falo em alguém sem dizer o teu nome, porque o oico sempre dentro de mim. Um amor tao grande que nao cabe em mim. E que nao queres para ti. Nos somos as escolhas que fazemos. Escolho o amor. Escolho o medo. Escolho a inseguranca. Escolho a felicidade. Escolho a intemperanca. Escolho a partilha. Escolho sofrer, a esconder-me.Alfama - o principio de um conto meu...
Conhecemo-nos nas ruas de Alfama, o bairro mais antigo deste Portugal pequeno. Mulher de pequenos pormenores e grandes sorrisos, com uns cabelos tao negros quanto a noite sem lua, e uns labios desenhadamente avermelhados. Todos os sabados pelo fim da tarde ela subia ao mais alto ponto da cidade para ver o mar. E eu acompanhava-a. Soh para a ver. A ela. Ela que dizia que nunca sairia de Portugal. Os sons e os cheiros de Lisboa sentiam-se em Alfama. Nas ruas estreitas escondiam-se tesouros e nas escadarias Lisboa cansava-se. A morena descia a peh por estas ruas e escadas estreitas e eu acompanhava-a ao ruido dos mercados e das tabernas pelas pitorescas ruas com fachadas descoloridas. Ouvia-se de tudo nesta Alfama confusa. Em cada esquina risos, gargalhadas, sinos, conversas fiadas, fados, desgarradas. Ouvia-se a voz de Alfama. Ouvia a voz da menina de brincos de perola logo muito cedo, quando ah janela gritava por mim. As nossas casas quase se tocavam, nestas ruas tao estreitas. Era possivel tocar nos telhados atraves das janelas rendadas e dos estendais de roupa, onde enxugahmos tantas vezes a nossa vida. Quando cahia a noite, Alfama cheirava a sardinhas assadas. Os cheiros misturavam-se com as roupas estendidas nas varandas, e as marcas dos tempos, dos amores e desamores, perpetuam-se de parede em parede. Alfama cheira a historia, a estorias, a saudade e a fado. Lembra-me a rapariga de cabelos sempre soltos e rebeldes, escuros como os seus olhos. Sempre lhe disse que escreveria sobre nohs. E tambem lhe prometi que nunca diria o seu nome. Cinco letras que tanto me agradava escrever em cadernos em branco ou em folhas soltas, repetitivamente. Hoje vivo a subir e a descer estas escadas, onde o passado se mistura com o presente. Procuro-a em toda a parte. Nos restaurantes minusculos onde se deliciava com sardinhas assadas. Nas escadinhas das ruelas ingremes onde corria descalca segurando as saias de cores sempre garridas. Procuro-a nos becos mais escondidos onde trocavamos beijos timidos e falavamos timidos do que acontecia dentro de nohs. Falavamos do futuro. E agora que ele chegou saudo saudoso o passado. Alfama continua igual. Mantem-se intacta. Como se o tempo tivesse parado, neste pedacinho de Portugal. Como se canta por lah, Alfama nao envelhece, e hoje parece mais nova ainda. Iluminou a janela, reparem nela, como estah linda. Vestiu a blusa clarinha, a da vizinha eh mais modesta, e pos a saia garrida, que eh soh vestida em dias de festa.Ela saiu de Portugal. E com ela levou os meus dias de festa. Eu fiquei. E nohs ficahmos assim. Separados e sempre com o outro no pensamento. Ate um dia... ate que eu encontre alguem que me preencha como ela me preenchia, alguem que me atraia, nao porque me faz lembrar o sorriso de Alfama, nao por ter o mesmo trejeito na boca, nao porque danca ou fala da mesma maneira, mas porque me preenche e me ama... Uma outra pessoa. Meu Deus, a quem tento eu enganar? Ela nunca vai sair de mim. Vou continuar a procura-la nas mesmas ruas, em horas diferentes.
22.9.05
IDIOTAS
IDIOTA, adj. e s. 2 gen. Pessoa atacada de idiotismo. Pessoa estupida. Completamente destituido de inteligencia. Que revela estupidez: olhar idiota.Apesar do tom extremamente agressivo da definicao, estamos todos de acordo. Um idiota eh uma pessoa particularmente ignorante. Inconveniente. Estupidificante. Um idiota eh aquele que, com o olhar perdido num qualquer objecto, parece pensar em assuntos importantes como o aquecimento global, a escassez de agua ou a fome em Africa, mas que provavelmente esta a pensar no que comeu ontem.
Um idiota eh aquele que exclama escandalizado nao-eh-droga-eh-soh-ganza, ou aquele que vai a correr para a fila de um self-service, pisa e acotovela e esmaga, para ser um dos primeiros e depois vai deixando passar pessoas ah sua frente por estar indeciso.
Um idiota eh aquele que nao percebe que eh indesejado em todo o lado mas estah sempre a dizer que se estiver a ser muito chato, que o mandem embora. E quando realmente o mandam embora, ele solta um sorriso logicamente idiota e atira um sua-brincalhooona... seguido de um gostas-pouco-gostas.
Um idiota eh aquele que diz insistentemente que quem mais jura, mais mente e justifica todas as suas accoes ou nao-accoes com proverbios populares.
O Murphy eh um idiota. Se nao tivesse inventado aquela lei idiota, hoje eu nao teria perdido tanto tempo a abrir a porta da garagem. O problema surge quando tentamos usar a ultima chave que usariamos, numa tentativa idiota de contornar essa lei estupida, e a lei prevalece. Lei eh lei, e o resto sao batatas. Idiotas.
20.9.05
Bom Natal
Um dos meus sonhos é o de ver realizado todos esses sonhos. Sonhos de Natal... Há tantos. Sempre houve. E o hino de Natal mais conhecido no mundo é certamente o ‘Noite Feliz’. Já foi lido e cantado em mais de 300 línguas e dialectos. Mas apesar de se cantar ‘Noite feliz, noite de paz...’, poucos são os que têm direito a ela. Eu desejo que essa Noite se estenda pelo dia e pelos dias e noites seguintes, e que chegue a todos. Desejo que as pessoas que são felizes e não sabem, se apercebam disso. Que percebam que o amor é a base da existência, e o fim último. Porque só vivemos quando amamos. Quando as coisas não nos são indiferentes. Amar o dia, o sol, o som das gargalhadas de um amigo, o verde das árvores, o café que se entornou na camisa, o poder andar e falar e pensar e reagir, e até sofrer – doces privilégios de quem vive. Mas que se sofra apenas quando necessário e durante o mínimo possível, porque a depressão é um equívoco, que contagia os outros e só torna a vida mais difícil. Enganemo-la com um sorriso. Pensamento positivo. Dar, não só para receber. Dar, porque sabe bem dar. Parafraseando o poeta Saadi, quando morrermos só levaremos connosco aquilo que tivermos dado. Bom Natal.O teu beijo ainda hoje sinto.
E os meus olhos choram, ardem e enchem levemente, como uma maré, para depois se esvaziarem.Lágrimas de dor, de perda, de saudade, de amor.
Lágrimas que se curam com um beijo teu. Se mo desses.
Se mo desses.
Sinto uma dor, uma falta, um vazio.
Um desconforto, um desinteresse, uma perda.
Uma flor que é pisada sem querer. Sem ser notada.
Uma lua brilhante e bonita, que ninguem estah a ver.
Um calor que ninguem sente.
Um vazio permanente.
Sinto uma dor. Uma dor que se cura com um beijo.
O teu.
Mais um poema sobre...
Ontem percorri o mesmo caminho que fazia todas as noites, quando vinha da tua casa. Percorri o caminho com lagrimas a descerem suavemente pelos contornos do meu rosto. Percorri esse caminho com tanta saudade. Tanta saudade. Como gostava de poder ainda percorrer o teu corpo. Com o olhar, com as minhas maos, com a minha lingua. Com o meu corpo. Desviei-me dos mesmos buracos que vezes sem conta me desviei. Esperei nos mesmos semaforos. Curvei as mesmas curvas. Mas desta vez, nao vinha da tua casa.Escrevo porque sim...
Há muito tempo que não escrevo aqui. Para mim. Para vocês. Para quem me esteja a ler. Para quem me leia com atenção. Para quem me leia na diagonal. Escrevo aqui o que quero e o que não quero. Os meus dedos já há muito que me deixaram de respeitar. Escrevem sem pensar e esqueço-me que muitas vezes o silêncio é de ouro. Crescer, custa. Custa muito. Há tantas coisas boas na vida, e tantos desesperos. Uns feitos, outros desenhados, outros inventados, outros inevitáveis. Crescer custa. Viver com as consequências também. O olhar vai amadurecendo. Não que perca o brilho, mas conhece mais, descobre menos. Surgem responsabilidades. O tempo escasseia. E quem não faz nada que goste em cada dia, não vive esse dia. Começamos a trabalhar. Ganhamos o nosso primeiro cartão pessoal da empresa. Orgulhamo-nos por nos terem chamado para trabalhar. Espantamo-nos com o que acabamos por conseguir fazer. Interessamo-nos pelo que fazemos. Mas o lazer ficou em casa. Ficou naqueles anos de estudante em que não se fazia nada. Naqueles tempos em que stressavamos com uma frequência mas que tinhamos mais de metade do dia por nossa conta. Continuo feliz, como sou. Continuo alegre, porque não tenho razões para não ser. Tenho uma família que me ama e faz tudo por mim. Tenho amigos com quem tenho a certeza que posso contar. Tenho muitas coisas boas, mas de vez em quando a vontade de sair e ir ter com o mar e surfar a tarde toda fala mais alto. Ser enrolada. Gritar quando consigo dropar. Perder-me nas horas do dia, voltar quando tenho sono. Comer quando tenho fome. Dormir quando quero, divertir-me. Hoje sonhei com a minha mãe e com a minha avó. E que tinha pegado numa bebé ao colo. Essa bebé era eu. E isto não é nenhuma metáfora, apesar de também poder ser interpretado assim. Foi dos sonhos mais estranhos que já tive. Peguei-me com cuidado, porque nunca tinha pegado em bebés ao colo. Carinhosamente tirei-me dos braços da minha mãe e disse-me, aproveita esses anos, e não tenhas pressa de crescer. Quando somos pequenos, queremos ser grandes. Quando somos grandes, queremos ser pequenos. Talvez precise de um amor. Como já tive. Só assim é que sabe bem crescer... Não se preocupem, não ando triste. Não aconteceu nada de mal. Não fiz nada de mal. Só cresci.E lembro-me de ti
Por muito que quisesse não consigo dizer-te o que sinto. As palavras atropelam-se, outras ficam tímidas. O meu corpo esconde-se bem ao lado da minha alma. E a minha boca humedece. Só quero amar-te. Outra vez. Adormeci a pensar em ti. E vi-te logo a seguir. Mas os meus desejos são cansaços e os meus sonhos são só sonhos. Tive-te tanto tempo e por tão pouco. Se soubesse, teria escutado a tua voz em vez de te ouvir apenas. Teria saboreado o teu sabor em vez de te provar. Teria sido feliz num banco de jardim. Enquanto te esperava. Quando te encontrava. Teria sido feliz numa ida ao supermercado. Numa fila de trânsito. Numa briga. Porque te tinha. Teria rasgado a minha cara ao sorrir. Rasgado o meu corpo ao me abrir. Ter-te-ia beijado por tudo, por nada. Ter-te-ia amado porque te amava. Quero amar-te agora em demasia. Quero dar-me a ti. O tempo tem corrido. E a dor, quase passou. Não digo que te esqueci. Digo apenas que consigo falar em ti sem chorar.6.6.05
A minha metamorfose
Nao leiam este texto. A minha vida alterou-se por completo. Só consigo pensar. Falar, é para esquecer. Eu era um médico cirurgiao pedriático de renome. Dois filhos e uma mulher gorda, mas que me amava. Dava palestras frequentemente e viajava muito em congressos. Uma noite acordei numa cama pálida e fria que parecia de hospital. A enfermeira veio ter comigo. Belas mamas, saiu-me desenfreadamente pela boca antes que conseguisse segurar as palavras. Esse belo conjunto de mamas. Letras, letras...!Ela ignorou-me, foi simpática. E perguntou-me como me sentia. Respondi que nem bem nem mal, antes pelo contrário. Levei as maos à boca, à minha boca.
A enfermeira perguntou-me o que eu fazia da vida. Talvez para me distrair, para me ajudar a passar o tempo. Estava internado e só teria alta dias depois. E eu queria explicar-lhe, que me especializei na cirurgia cardíaca pediátrica, que é considerada uma das subespecialidades mais complexas dentro da medicina. Mas nao, falei-lhe que o futebol tinha uma intensidade plástica fora do vulgar, e que sem dúvida que eu seria um dos melhores jogadores da Europa, e talvez de Portugal. Ela olhou para mim, e eu quis dizer-lhe que o conhecimento acumulado nas últimas décadas pelo entendimeto da fisiopatologia das diversas cardiopatias congénitas, aliado aos progressos tecnológicos incorporados à prática médica, tinham vindo a permitir a correccao cirúrgica de grande parte das anomalias cardíacas, com reducao significativa dos índices de morbidade e mortalidade. Mas nao, disse-lhe ainda que quando jogava estava sempre em excelente forma e que nunca deixava o Sá Pinto penetrar na minha áerea. Seja lá isso o que eu tenha querido dizer. Contei-lhe do último golo que tinha marcado e disse-lhe, para minha amarga vergonha, que de facto foi golo, com a bola a bater a mais de dois metros para lá da linha de golo. Ela olhou para mim de lado, e eu estupidamente insisti. Disse-lhe que o jogo tinha sido complicado e que o estádio era bonito, moderno e arejado. E quando ela aterrorizada me perguntou o que correu mal entao, eu contei-lhe, um passe para uma zona de ninguém, onde realmente nao estava ninguém. O que se passou comigo?
É este o meu problema. Foi esta a minha metamorfose. Só consigo pensar. Abro a boca e saem frases desconexas, sem inteligencia, que nao consigo controlar ou dominar. Só falo de futebol. O meu corpo nao é o meu corpo, e a minha cara tem agora feicoes brejeiras. Vi-me ao espelho. Perdi a classe. Perdi o meu sinal do rosto e ganhei acne. Perdi os pelos que tinha no peito. Assim como muitos neurónios. E os meus pés agora divertem-se com uma bola. E o mundo roda à volta das minhas contratacoes. Dos jogos. Dos resultados.
Dias depois, saí do hospital. E já com as minhas roupas, que nao sentia que fossem minhas, abandonei aquele lugar. Levava comigo o meu pensamento, que era a única prova de que eu nao era vazio, como aparentava ser. A única prova da alteracao ou metamorfose que se tinha passado comigo.
Terei sido alvo de alguma experiencia alienígena? Cobaia de médicos sem consciencia? Levei as maos à cabeca. Guardo-te cérebro, como o meu bem mais precioso. Desprezo-te corpo. Desprezo-te personalidade. Desprezo-te ignorancia. Desprezo-vos, palavras que saem da minha boca. Desta boca, que nunca será minha. Desprezo-te vida diferente, vazia, que me esvazia. E que dentes horríveis tinha eu agora…
Nao leiam este texto. Nao é mais do que a prova da minha nao existencia. Ou da minha morte. Nao é mais do que a prova viva de uma injustica. De uma metamorfose. De um pesadelo do qual sei que nao vou acordar. De um passado apagado por uma borracha. De um futuro escrito a pontapés.
A minha vida alterou-se mesmo, por completo. Os meus amigos eram diferentes. A minha namorada tinha silicone no peito. Saía frequentemente à noite com os meus colegas jogadores e tinha conversas completamente fúteis com eles. Cheias com o nada. Vazias de conteúdo. A maior parte do tempo, ficava calado. Com os meus pensamentos. E em pensamento ia conjecturando o que me tinha acontecido. O que foi que aconteceu? Nao me lembro do que se passou ou o que terei feito. Alterei-me. Ganhei outro corpo, perdi o meu. Ganhei outra vida, perdida. E a minha namorada tem silicone no peito. A minha namorada é nova e tem silicone no peito. A minha namorada tem peito. Namorada. Peito…
Dias mais tarde tivemos um jogo importante. Comecava a habituar-me a esta vida, sem no entanto me habituar à minha linguagem ou ao meu vocabulário, ou à minha maneira de me comportar, de me vestir, ou aos ambientes que frequentava. Para dizer-vos a verdade, comecava a habituar-me aos jogos, ao dinheiro, à minha namorada com silicone no peito e às minhas outras amigas cheias de cor. Nesse dia jogámos muito bem. Joguei bem. Fui o homem do jogo. E no final da partida, lá me encontrei eu com os abutres da comunicacao social, e deixei que os jornalistas, atropelando-se constantemente, me entrevistassem. Perguntaram-me como mantinha eu a minha condicao física, se tinha ou nao cuidados com a alimentacao. Claro que sim, quis dizer-lhes que um jogador deve comer alimentos ricos em carbo-hidratos, que servem de matéria-prima para a producao do glicogénio muscular, a primeira e a principal fonte de energia utilizada durante o exercício físico. Mas em vez disso, saiu-me que sim, o Jardel come bem, o Jardel sabe o que deve comer e o que nao deve comer, e vice-versa. E foi assim que descobri o meu nome. O meu novo nome.
E aqui me encontro nesta vida, dentro da outra. Nao sei quem sou. Ja nem sei se fui, ou se voltarei a ser. Mas guardo ainda em mim muitos sonhos.
10.4.05
26.2.05
Sorrir
O periodo mais difícil da minha curta/longa (dependendo do ponto de vista) vida foi este, quando entrei de urgência no Hospital depois de quatro dias com dores na zona do ventre, que entretanto já se tinham alargado para toda a barriga. Ainda dei um concerto em Oeiras, se bem que metade do tempo passei na cadeira porque cantar, cantava… levantar-me é que já se tornava difícil. O concerto correu muito bem, à parte dos dois minutos que fiz de intervalo nas duas horas que tocámos, para me poder deitar sem que ninguém visse e para que as dores diminuíssem. Valeram-me os dois nimeds do dia e os dois ben-u-rons da noite. O concerto foi dia 11, e dia 13 por volta da uma da tarde fui de urgência para o hospital. A minha barriga já ultrapassava em larga escala o que podemos considerar o normal, mesmo depois de uma boa picanha e sobremesa bem servida (nunca perdi o apetite).Chegamos e passaram-se horas, de exames em exames, análises em análises, esperas aqui, esperas aqui. Finalmente deitaram-me numa maca, depois de me terem mandado tirar a roupa, até as meias... As dores já eram fortes, tanto que qualquer movimento as agravavam. Fui transportada (martirizada) de maca para muitos sítios e em todos os lugares que me paravam sentia-me sempre a mais. Ou estava à frente de uma porta, ou na passagem, ou queriam mudar outro paciente de um lugar, e era um engarrafamento de macas. Os enfermeiros que conduziam a minha maca, que foram mais de quatro só um é que devia ter podido tirar a carta. Os outros atiravam-me para os elevadores e erravam a entrada. Comecei a perceber que não ia ser fácil. Comecei a perceber que para além das dores que eram normais, advindas da doença (e que na altura não sabia qual era e isso já era suficiente para me preocupar), para além dessas, ia ter muitas mais, causadas pela falta de cuidado de alguns enfermeiros e por quase todas as auxiliares. A parte mais fácil dos cinco dias que estive internada foi o antes e o durante a operação. Houve vários diagnósticos. Parecia haver hemorragia interna. Parecia ser apendicite aguda. Parecia ser um problema no ovário. Até uma gravidez fora do útero foi posta em hipótese. De todas, a apendicite era a mais apetecível (até são parecidas as palavras). Dentro do mal o menos. Senti-o na pele, literalmente. Depois de muita espera, de muito sangue tirado para análise, resolveram operar-me de urgência. Decidiram abrir-me a barriga nem em cima do apêndice, nem em cima do ovário, e sim a meio caminho dos dois para poderem tratar o que fosse preciso. Avisaram-me que o pós-operatório seria muito complicado, porque iriam mexer, cortar, macerar muito os músculos, tudo. Está bem. Quero é ficar boa. Confiei. E confiei bem. Grandes médicos, e grande equipa. Correu tudo bem. Um quisto tinha rebentado dentro do ovário direito e causado ruptura do ovário e a tal hemorragia que acontecia há já quatro dias. Depois da operação muita coisa podia dar errado. A hemorragia podia não estancar. Podia haver complicações de vária ordem. Aproveitaram e retiraram também o apêndice, porque não estava ali a fazer nada e tinha ar de pouco simpático. Abrirem-me de novo para tirar o apêndice é que não! Dois em um. Como um shampoo que também é amaciador. Assim foi. Foi pelo melhor. Estive três dias em risco de levar uma transfusão de sangue, porque perdi demasiado. O médico preferiu esperar que eu recuperasse sozinha, ainda bem. Antes assim. Durante a operação, como foi anestesia geral, ligaram-me a todo o tipo de aparelhos. Para respirar, para controlar a pulsação, algalearam-me (um tubo na uretra, só de pensar dói-me de novo), entre outras coisas necessárias. Entrei na sala de operações no dia 13 às 9.13 da noite. Saí pouco antes da meia noite. Lembro-me de ter acordado antes de eles estarem à espera, ou a anestesia não era assim tão forte, ou eu sou forte como um cavalo... (um cavalo é um animal fixe, corre, coisa que deixei de fazer por largos meses). A minha realidade estava um pouco, ou muito turva, e confundia a realidade com o sonho. Lembro-me de ter muitas dores, de me remexer violentamente na maca, de me sentar bruscamente na maca e tentar libertar-me de não sei o quê que me prendia, talvez os tubos dos soros, não sei. Lembro-me de agarrar a mão do médico ou de alguém que não tinha cara, só me lembro da bata azul (bloco operatório), de lhe agarrar a mão com força e dizer a gritar que doía muito. Eu aguento muito bem as dores, estava descontrolada nessa altura porque me sentia a sonhar. O engraçado é que o meu pai (que também é médico) também estava de bata (mas branca) perto desse médico (de) azul, mas eu não me lembro dele lá nessa altura. Dias depois ele comentou comigo, eu sempre estive quieta na maca, tirando uma altura que levantei paulatinamente a mão que o médico agarrou e realmente eu disse: dói muito... e o outro médico deu-me mais anestesia (pela veia) e eu voltei a dormir. A minha realidade estava deturpada. Ou será que era o meu espírito a esquivar-se das dores que sentia no corpo? Dormi. Voltei a acordar eram 5.34 minutos (vi-o no relógio grande e branco da parede do S.O., para onde vão os doentes acabados de operar, o recobro, onde supostamente são acompanhados e vigiados as 24 horas do dia). Estava numa sala grande branca-suja (já fora branca-branca), num canto, e a minha cama tinha cortinas à volta. Sentia a presença de outros doentes, mas não os via. Só os ouvia quando gritavam de dores, ou gemiam. Ainda hoje me arrepio quando me lembro. Se antes eu já era sensível às dores dos outros, agora... agora sinto-as. Estava ainda ligada a uma máquina, que eu chamo máquina da vida, porque é onde aparece aquela linha assustadora estática e contínua quando alguma coisa corre mal... e porque não sei o nome. As dores eram demasiadas, apesar dos soros e dos medicamentos que entravam pelas minhas duas veias, sobrecarregadas. Não conseguia esticar as pernas, porque simplesmente as pernas não conseguiam estender-se. Não conseguia falar alto, porque me faltavam as forças, o ar, e como tinha estado entubada até à traqueia, tornava-se impossível falar. Conseguia apenas sussurrar ou mexer os lábios de maneira a que algum som saísse da minha boca. Mas não tinha ninguém que me ouvisse. Era de noite, e as enfermeiras estavam ocupadas (as boas enfermeiras) e as outras, estavam mais interessadas em conciliar o sono. O delas. Não tive coragem de espreitar levantando o lençol da cama, a única coisa que cobria o meu corpo nú, para ver onde tinham feito a incisão, e para poder vislumbrar o problema que tinha tido. Se fosse gravidez fora do útero, ter-me-iam tirado a trompa direita (o médico alertou-me para o caso) e a incisão seria mais acima. Se fosse apendicite (queria tanto que fosse só isso) a incisão seria mais abaixo. Não olhei. Também não sei se conseguiria porque o meu braço direito estava cheio de tubos. As minhas pernas estavam a ser apoiadas pelos calcanhares, porque tinha de fazer força neles para as manter daquela maneira, para que não caíssem, para que não relaxassem, as dores com as pernas esticadas seriam ainda mais fortes. Então chamei uma enfermeira, a custo. Nada... E fiquei sem ar, cansei-me. Não obtive resposta. Passou-se meia hora. Chamei-a de novo… e ouvi Diga com um tom de Mas o que é que quer, deixe-me dormir!, eu insisti e ela com uma voz ensonada repetiu Diga… Desisti. Não me deve ter ouvido. Ou não quis ouvir. Também não se levantou para ver se eu estava ou não a morrer. Não estava, foi a minha sorte. Fiquei sem almofada para colocar debaixo dos joelhos. Fiquei com os calcanhares queimados.
Mas isto não foi nada, comparado com as outras noites. Que não vou falar. Foram negligentes. Comigo e com todos os outros. Nem me quero lembrar das outras noites. De tocar a campaínha porque se esqueciam de trocar o soro que tinha acabado, ou o medicamento. Esqueciam-se das horas, e eu estava até quatro horas com ar a entrar na veia (mais dores que seriam desnecessárias) porque quando acaba o soro ou o medicamento tem de se fechar a passagem do líquido. Mas eu não chegava lá, não me conseguia levantar. Tocava e ninguém aparecia. Mas o meu problema não era grave. Imagino os doentes de idade avançada, em fases complicadas da doença, a precisarem de ajuda, e a não receberem. Enfermagem é a profissão de cuidar. Ou deveria ser.
Mas este foi apenas o primeiro vislumbre da humanidade (que humanidade?) da maioria das enfermeiras e de todas as auxiliares. Mas o que tive não é nada comparado com os problemas que infelizmente existem por aí. O amor, o carinho, o sentirmo-nos amados é um poderoso estimulante do sistema imunitário. Na sociedade em que vivemos, as pessoas passam pelas outras sem realmente as verem. Estamos fechados no nosso próprio corpo, centrados e completamente extasiados com o nosso umbigo. Ninguém tem tempo para perceber o que significa uma das frases mais ditas Então, tudo bem? Já ninguém o diz a querer realmente saber como o outro se sente. Não significa mais que um copo vazio, ou uma carruagem vazia. É vazio. Nos hospitais, tal como na vida, as pessoas gostam de se sentir acarinhadas, apoiadas, preparadas, informadas. Amparadas. É preciso humanizar os hospitais. Mas nem todas as pessoas que são enfermeiras deveriam sê-lo. Muitas deviam ter ido para a mecânica. Tratar de carros. Porque os carros não se preocupam, não sentem solidão, não se sentem desprotegidos. Os carros não precisam de atenção, não sentem dores. Não sofrem. As pessoas sofrem e as enfermeiras deviam fazer de tudo para tentar minimizar o sofrimento (físico mas também o psicológico). Cuidar. É de consenso geral que o negativismo se alimenta a si próprio, assim como o positivismo. Um pensamento positivo atrai algo positivo. A afectividade é essencial na recuperação de um doente. Falar que o doente tal está praticamente nas últimas à frente desse pobre coitado é terrível. Uma enfermeira deve ser competente e humana. Quando mais seguro e amparado estiver um doente mais depressa se recuperará. E melhor. Porque o psíquico também adoece, também se alimenta. Também emagrece. Porque o psíquico pode ajudar a recuperar, mas também pode fazer-nos desistir. E isso pode ser a diferença entre a vida e a morte. Sorrir mais, significa mais sorrisos para os que sorriem e para os que recebem esse sorriso. Um sorriso para vocês. Beijinho.
Viajar só
Num escritório de cartas mortas, vi apenas o sofrimento das cartas.Apaguei os destinatários e dei-lhes vida,
Numa ingenuidade de uma realização imediata.
Sinto-me uma alma nua,
Que caminha a passos curtos e despreocupados na estrada recta,
Sem nenhum objectivo.
Caminho num mundo sem pai,
Onde os originais mortos são os meus heróis,
E deixo para trás um mundo de cópias.
Quero viajar, só viajar.
Passar sem outra forma de sociedade.
A não ser quando páro, e me reconheço na estrada.
24.2.05
Legendas trocadas
Tenho os nossos momentos descritos numa carta guardada. Tenho os teus argumentos assentes em legendas trocadas. Tenho os meus sentimentos guardados. Numa caixa de sapatos. Tenho os teus beijos soprados, numa cama espalhados.Memórias perdidas.
Fazias mais parte de mim do que qualquer outra coisa minha.
Até um dia. Se estivermos na mesma rua, no mesmo dia.
23.2.05
Informação espectáculo?
A informação está crivada de alguns vícios que a tornam pouco consistente, falaciosa e especulativa. Um deles, o que mistura 3 ingredientes: sangue, sexo e dinheiro. Esta fórmula faz subir as audiências, e isso é que é preciso.A estes ingredientes, juntam-se ainda o aparentemente inesperado, o falso exclusivo e o surpreendente. Um exemplo de como a antecipação sem confirmação pode resultar em cenas ridículas, foi o caso de Angel Pui Peng, a cidadã portuguesa, de origem chinesa, condenada à morte. Num jornal foi anunciada a execução de Pui Peng, emprestando uma emoção especial ao acontecimento com a adição de alguns pormenores sórdidos dos últimos minutos de vida da condenada, umas quantas frases comovidas, outros tantos arrependimentos. No dia seguinte, soube-se que a aplicação da pena tinha sido adiada.
Mais um vício?
A ilusão do directo. A maximização da emoção é transmitida via informação em tempo real. Se ao directo se associar o imprevisto, então a informação-espectáculo atinge o seu ponto mais alto. Podemos falar também nos efeitos perversos do julgamento prévio e que é, talvez, o efeito mais perverso da informação-espectáculo. O querer mostrar mais, leva aos directos e às simulações, sem bases que os suportem. Sendo a informação mais rápida que a Justiça, o telespectador é induzido a fazer o seu próprio juízo, condicionando à partida o próprio julgamento. Um bombeiro voluntário passa a pirómano sem ir a julgamento.
Audiências! Audiências!
A incansável procura de factos faz com que alguma informação se assemelhe, perigosamente, a uma farsa. As inovações tecnológicas permitem que um noticiário seja uma volta ao mundo em 30 minutos, deambulando as imagens entre desgraças e cadáveres, entre escândalos e catástrofes. Sim, porque a rápida convalescença de uma menina não interessa. Interessaria se ela tivesse morrido a meio da operação. Negligência dos médicos. Isso sim, é notícia. Polémicas! Audiências! A informação-espectáculo vence assim a informação-educação, fazendo com que, apesar dos satélites, e talvez por culpa deles, o telespectador nada ganhe com as inovações tecnológicas ao nível da informação.
Este blog nasceu em Lisboa
Se fores a este blog no mínimo duas vezes por semana, e falares deste blog pelo menos a 10 pessoas, hoje à meia noite e quinze vais ter uma boa surpresa, a tua vida amorosa será perfeita, terás muito bom sexo até aos 103 anos, e serás sempre feliz. Caso contrário, algo de terrível te acontecerá em menos de 2 dias.A história da Barbie
A Barbie antes de ser conhecida, era prostituta. O Ken, era o manager dela, e como eram relativamente chegados, ela tirou-o também dessa vida.Mulher
És tu que me atrai quando me atiro, sem pensar em mim,crivada no meu corpo entregue a mim sem estares,
o que há em ti?
É em ti que vagueio junto ao porto perdido,
sem rumo no vazio desencontrado, por onde me consomes.
É em mim que te escuto mulher
e o és pelas ruas do mundo,
pelos bolsos dos homens.
É sem ti que me deito contigo, quando erro amando
e te percorro salgada por entre os teus cantos.
É em ti que me afogo se deixasses
quando submerso nos teus beijos,
absorvo o teu rio e o teu olhar fingido.
É no mar do teu corpo que deixo o meu rio desaguar,
É em mim que te procuro, saliências firmes e tuas.
É em ti que me confundo, porque não te encontro.
Porto sem mar, casa sem tecto, nas ruas do mundo.
Vivemos na era do cinzento
Eram 20:13. Estava a jantar e a ver o telejornal. Estive particularmente tensa quando falavam de uma doença de um rapazinho, que o incapacitava para a vida toda. E as imagens eram reveladoras. Dei por mim a prender a respiração. Depois disso, outro caso dramático, mais uma doença, mais imagens, mais emoções. E eu sem conseguir respirar ainda. Depois destas duas notícias, a notícia de uma morte de um polícia. E eu suspirei de alívio.Não que eu seja má, ou que deteste assim tanto a Polícia... Suspirei, relaxei, fiquei menos pesada - e isto é triste ter de admitir - porque já estou habituada a ouvir falar de um que foi morto, de dois que morreram num acidente de carro, de três que foram assassinados. Já estamos tão habituados a que, através dos media, tantas mortes e desaires entrem em nossa casa, que é apenas mais um número.
Estamos indiferentes. E isto é muito grave.
21.2.05
Sexo
A pedido de várias famílias, desfloro este blog falando-vos de sexo.Segundo o dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, sexo é o comportamento característico do macho ou da fêmea; o desenvolvimento de funções diferentes nos fenómenos de reprodução; os próprios orgãos reprodutores; conjunto de pessoas que têm morfologia idêntica relativamente ao aparelho sexual (do lat. sexu).
Segundo o mesmo dicionário, que devia ter uma bolinha desta cor no canto superior direito da capa, fêmea é a mulher; qualquer animal do sexo feminino; qualquer peça com orifício, sulco ou concavidade que recebe outra saliente (macho) para o seu complemento, que lhe é introduzida ou encaixada.




