9.02.2008

O meu nome é Sofia e moro com os meus pais na Pontinha.


A minha casa da Pontinha cheira à minha mãe. Cheira a bolo de chocolate feito pela Olga. Cheira a jogos de xadrez com o meu pai, que desconfio que ou me deixa ganhar ou joga muito, assustadoramente mal.
A minha casa da Pontinha sabe às manhãs de sábado, deitada na cama a ver os bonecos na televisão, e a pão com nucrema, ou nucrema com pão. Sabe àquelas pessoas de plástico de 9 centímetros às quais passo a vida a mudar as perucas e as pernas. Toma lá umas pernas azuis, para combinar com a camisa. É isso, a minha casa na Pontinha cheira a pernas azuis dos playmobis.

Mas hoje devo estar constipada. Deve ser isso, porque não sinto nenhum cheiro familiar. Estou de férias em algum lugar. Sim, porque hoje não acordei no meu quarto cor-de-rosa. Nem acordei com a minha mãe a subir de rompão os estores, porque está um dia lindo lá fora, nem com as músicas dos Platters, ou com canções italianas. Hoje a minha avó também não me veio desafiar para um crapô. E o meu pai não chegou a casa, nem pousou a pasta de médico, parecida com a pasta do Dr. Freud, no armário da entrada. Os miúdos não discutiram sobre quem levava o carro hoje à noite. O Pedro não atirou as culpas para cima do Bruno e o Bruno não se atirou para o sofá a ver televisão. Não está ninguém em casa, ou será que eu é que me evadi de mim? Não. Devo estar de férias.

Estranho. Quem é este homem que agora todas as noites dorme e acorda comigo? Que parece que sabe quem eu sou e do que é que gosto. Que sabe que tenho medo de morrer a dormir, e que tenho medo de enlouquecer. Mas quem é este homem sentado ao meu lado com um anel igual ao meu, e que sempre se adianta e pede uma Coca-Cola por mim porque sabe que eu não bebo outra coisa? É giro, não vou dizer que não, e de vez em quando dá-me beijos na boca, sabem bem, não vou dizer que não, mas não deixa de me ser um estranho. Um estranho que me conhece. Será que me é alguma coisa? Um parente afastado? Um primo afastado apaixonado? Não. Não sei quem é. E não é da minha família. Nós somos cinco lá em casa. Não há o que enganar nas contas. Sempre fomos cinco: A minha mãe, o meu pai, eu e os miúdos. A minha avó mora no quarteirão a seguir, tenho um tio-avô em Linda-a-Velha e uma tia-avó na Rua dos Soeiros, e é isso, não nos damos com mais ninguém. E lá em casa somos 5.

Estranho. Dizem-me agora que As minhas águas rebentaram. Mas eu não estou a chorar nem estou com a menstruação. Eu acho que sofro é de incontinência. Sim, sinto água a correr pelas pernas abaixo, qual fonte contrariada. Depressa, é o primeiro filho, acabei de ouvir. Mas filho de quem? O meu nome é Sofia e eu moro com os meus pais na Pontinha. Vestiram-me uma roupa azul, e gritam, repetitivos, Puxe, puxe. Vá lá, só mais uma vez. E eu, obediente e de pernas abertas, vejo um bebé a sair de mim, a chorar desalmadamente. Quem é ele? Parece um dos meus Nenucos mas eu sei que não é meu. Os meus Nenucos não choram, não funcionam a pilhas.

15 Comments:

At terça-feira, 02 setembro, 2008, Anonymous Tânia said...

Caraças pá!!!!
estava a ver que nunca mais te lia assim :) :) :) :)

Estou tão contenta!
Beijo grande

 
At quinta-feira, 04 setembro, 2008, Blogger pu pu pi tu said...

:)

lindo, linda!

 
At quarta-feira, 10 setembro, 2008, Blogger c said...

muito, muito bonito :)


bjs.

 
At quarta-feira, 10 setembro, 2008, Anonymous mamae said...

lindo amor

 
At quinta-feira, 11 setembro, 2008, Anonymous Anónimo said...

Estas com alzheimer prima...deixa lá, é mal de familia!!!

beijao

 
At quinta-feira, 11 setembro, 2008, Blogger c said...

;)
sempre a surpreender!

 
At quinta-feira, 11 setembro, 2008, Anonymous Esteves said...

Muito, mas mesmo muito bom! Talvez ainda venhas a escrever um livro usando isto como introdução.

 
At segunda-feira, 15 setembro, 2008, Blogger Johny no Ar said...

mto bom

 
At segunda-feira, 15 setembro, 2008, Blogger Stephen King said...

Excelente...

 
At terça-feira, 07 outubro, 2008, Blogger Mauro said...

Muito muito muito bom Sofia. Também vou ter uma "Nenuco" lá em casa que me desarma os sentidos. Medo de romper a bolha "actimel".
Do amigo desnaturado. =/

beijinho

 
At segunda-feira, 13 outubro, 2008, Anonymous sl said...

As mesmas memórias do que queres ser e outras ficções de quem és.
És vida.
Sempre tu.
Que saudades de me reler em ti.

Abraço amigo

 
At sábado, 18 outubro, 2008, Blogger mole said...

Arre, fazia falta ler-te!!! Olbidei-me por completo que isto existia. Mas, qual ar que se respira, um CTRL+ALT+Delete (carregas nestas teclinhas, nesta mesma ordem mãe; sem largar, mantendo sempre todas premidas!) nunca deixa de existir por completo. E depressa volta a ganhar um (excelente) motivo de (ser) existir.

Parabéns querida escritora... Ainda me consegues fazer (emocionar) sonhar. *

 
At domingo, 19 outubro, 2008, Blogger Zofia said...

Queridos, obrigada! :)

 
At domingo, 21 dezembro, 2008, Anonymous Anónimo said...

Só para mandar um beijinho e boas festas! Excelente escrita como de costume.

Hugo

ps. que tal fazeres uma lista a partir deste gerador de caracteres que nos obriga a validar palavras? Surgiu-me agora esta ideia, pediu-me para validar "stoliese", que poético. :)

 
At domingo, 22 novembro, 2009, Blogger Catarina said...

Adoro =)

 

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